No calçadão da Rua General Teles, o velho interrompe a caminhada, descansa as costas na parede do imóvel que abrigou, por décadas, a Sociedade Síria Beneficente. Tira o chapéu, prende-o entre dois dedos da mão que segura a bengala. Com a mão direita, retira o lenço do bolso traseiro e enxuga o rosto e a cabeça quase calva. Ambos estão molhados de suor. Sem dobrá-lo, enfia o lenço no bolso donde o retirara, devolve o chapéu à cabeça.
Os olhos cansados e indecisos do homem espiam a Praça Barão da Franca, cheia de gente, repleta de bancos. Imagina que a maioria dos bancos está vazia. Faz tenção de caminhar até eles, mas tudo lhe parece distante.
Decide-se por fim. Descarrega peso na bengala, antes de dar o primeiro passo. Nesse momento, é interrompido pela voz feminina. As palavras chegam confusas devido ao burburinho reinante, mas seu nome é traduzido com nitidez.
- Sô Chico, o senhor está bem?
O homem deixa que suas costas descansem novamente na parede, arregala os olhos, estranha as duas mulheres paradas diante dele, encarando-o com semblantes preocupados. Uma delas insiste.
- O senhor está passando mal?
- Hein? O quê ?
- Parece que o senhor sentiu uma tontura... O senhor precisa de ajuda?
- Não, não... Quer dizer... fiquei cansado... Acho que foi porque saí sem comer nada.
- Ah! Vamos até ali no Café Globo, tomar uma xícara de café, comer alguma coisa.
O velho recusa o apoio do braço, mas acompanha as mulheres. Quarenta, cinqüenta metros adiante, vence com dificuldade o obstáculo representado pelo degrau que separa a calçada do estabelecimento. Uma das mulheres solicita pingado leite com café e pão com manteiga.
O velho ingere café, leite e pão e, minutos depois, parece reanimado. E o rosto lívido recupera cores, ao tempo em que os olhos recuperam vida.
- Então, Sô Chico, está melhor agora?
Os olhos mansos fitam as duas mulheres, enquanto a fisionomia toda faz indagação.
- O senhor não está conhecendo a gente, hein Sô Chico? Eu sou a Selma e esta é a Graça filhas do Vadico.
- Como? Filhas do Vadico Leiteiro?
-Isso mesmo. A gente era mocinha quando o senhor morava perto de nós, lá na Rua Padre Conrado.
- Ainda moro, meninas. Moro na mesma casa.
- E a gente morava na Rua Cavalheiro Petráglia, perto da venda do Zé Galetti.
- Sei, sei... Lembro de tudo. Eu tenho cabeça de elefante, não esqueço nada. E tenho saúde de ferro, nunca fico doente. Hoje é que me deu esta fraqueza... Culpa da Dita... ela não chegou pra trabalhar, e eu saí sem tomar café.
- O senhor quer pegar um táxi pra voltar pra casa?
- Não, não... Já estou bom. Vou ficar sentado na praça, até a hora do almoço.
- Então, adeus Sô Chico.
- Adeus, meninas... Dê lembranças minhas pro Vadico e pra Dona Sebastiana.
As mulheres se entreolham espantadas, e se vão. Na rua, Graça interroga a irmã.
- Você viu? Ele mandou lembrança pro pai e pra mãe. Será que ele está ficando doido da cabeça? Ele sabe que eles morreram faz tempo.
- Não, não está doido... Foi uma caduquice. Todo mundo fica assim. Eu tenho até medo... lembra uma vez que saí procurando A Cinderela, e a loja já tinha fechado fazia um tempão?
Graça e Selma riem alegres e vão conversando pela Rua do Comércio donde sumiram a Cinderela, a Caprichosa, a Franca-Chic, a Casa Betarelo, “onde tudo é bom, barato e belo”...