08 de julho de 2026

Prosas de viuvez


| Tempo de leitura: 5 min

Numa rodinha de amigas ouvi pela primeira vez que o viúvo, marido de grande amiga falecida há um bocado de tempo, está feliz, namorando, claramente se recuperando da grande perda sofrida.

O comentário veio em voz baixa, quase na surdina, como se ela ainda estivesse viva e sendo traída de forma inescrupulosa. Surpresa, assisti a uma inesperada defesa, vinda por parte de uma daquelas mulheres: ele deve mesmo retomar sua vida, ainda tem muita lenha para queimar, foi um marido exemplar, amoroso, carinhoso, companheiro; os filhos (que ainda choram a mãe) mais dia, menos dia saem de casa, tomam seus rumos e quem vai voltar para casa e encontrar a casa vazia é ele. Nenhuma de nós - que aponta um dedo na sua direção hoje, estará na sala, no jardim, na cozinha ou no quarto fazendo-lhe companhia. Silêncio sepulcral. Mas as cabeças continuaram funcionando...

As reações e opiniões da e sobre a viuvez são variadas e diferentes. E as há até bizarras. Tio próximo afirmava que viúvo é quem morreu. Tia distante, que viveu aos trancos e barrancos com o marido infiel que a traía descaradamente, cuidou com desvelo do ‘traste’ - assim se referia a ele, o que dá para dimensionar o grau de incompatibilidade - desde a constatação da grave doença, até o final. Segundos após o falecimento, foi para seu quarto, tomou banho, voltou à sala com mala pronta e anunciou aos filhos que estava de partida por uns tempos, que não tinha data para voltar. Questionada, disse ter cumprido fielmente a promessa no pé do altar, mas que a morte os havia separado e ela esperava que para sempre. Foi para o Rio, não voltou nem para a missa de mês! Minha mãe nunca se considerou viúva: amou meu pai de corpo presente, até morrer - gostaria de acreditar que se encontram juntos agora. Sei de uma trinca de irmãs, duas delas viúvas. A terceira, diz para quem quiser ouvir que não teve sorte: as irmãs viajam, são livres, vão quando e para onde bem entendem, mas ela não pode acompanhar, por causa de suas obrigações conjugais. Fala quase chorando. (Particularmente, nunca entendi se percebe a extensão do significado desse discurso). No livro Arranca-me a Vida, alguém diz à heroína, ainda no velório de seu marido: ‘A viuvez é o estado ideal e melhor condição social da mulher. Colocamos o defunto num altar, honramos sua memória toda vez e passamos a fazer tudo o que não pudemos com ele em vida!’.

Cada um administra a dor da perda da maneira que pode: se há viúvos de cônjuges vivos (que secretamente sonham com a efetivação de um novo estado civil), há viúvos inconsoláveis e outros que falam dos falecidos com naturalidade e frescor, como se eles fossem chegar a qualquer momento.

Essas tergiversações surgiram quando as comadres começaram a questionar o possível namoro do viúvo da nossa amiga. Na esteira dos ânimos encerraram a tarde contando o que fariam se ficassem viúvas. Uma, que cremaria os restos mortais do cônjuge, dividiria as cinzas em vários potinhos e os jogaria um a um nos rios mais bonitos do planeta: no Sena, Danúbio, Ganges, Amazonas, Pó, Prata, Volga, Nilo, Chang Yian, Arno, Mississipi, Eufrates e Tigre, sem especificar se é uma homenagem ou medo da capacidade de regeneração do marido... Outra garante a permanência quase eterna de sua castidade, temendo que o marido cumpra a promessa de ficar em estado de alerta no Além, e ai dela se ousar dormir com alguém novamente! Acho mórbido pensar em como seria minha reação, não gosto muito de pensar nisso. Faço um pedido à minha família: não me deixem insepulta, como que me responsabilizando pela tristeza que minha morte porventura causar. Quem está vivo, está vivo. Deixem partir quem já morreu.

DICA
Arranca-me a Vida, romance de Ángeles Mastretta, se passa no México dos anos 30 e sua trama envolve política, corrupção, adultério, assassinato e amor. É a história triangular de Andrés Ascencio, Catalina Guzmán e Carlos Vives. Conta a luta de uma mulher que busca sua independência e liberdade em um país preconceituoso e machista. Novela escrita em 1985, demorou para ser sucesso que, alcançado, virou filme e concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2008.

VÍDEO
A tese de conclusão de curso (TCC) de aluno do Curso de Arquitetura da Unifran está em forma de vídeo e disponível no endereço http://www.youtube.com/watch?v=iKIxRrUaDEc. Trata-se de sugestão de projeto para revitalização do prédio da AEC/Centro. Como francana, ainda estou inconformada com a possibilidade do magnífico prédio se transformar em mercado. Soubesse quem o comprou, sugeriria que analisasse o vídeo com carinho e alma de francano.

TOXINAS
“Já ouviu falar em toxinas da casa? Pois são objetos que você não usa, roupas que você não gosta ou não usa há um ano, coisas feias, coisas quebradas, lascadas ou rachadas, velhas cartas e bilhetes, plantas mortas ou doentes, recibos/jornais/revistas antigos, remédios vencidos, meias velhas, furadas; sapatos estragados”. Livre-se delas para manter sua saúde! Destralhe-se!

PRIMAVERA
Tenho maior afinidade com o Outono, porém a Primavera me encanta. Gosto do cheiro que fica no ar; escuto mais o canto de mais pássaros; acredito que a Lua - principalmente na sua fase cheia - mostra brilho diferente. E como brilham as estrelas! No jardim, adoro ver meu flamboyant renascer: todo ano acho que não resistirá à inclemência do Verão e ele me contraria justo nessa época, zombando de mim e ‘verdelescendo’ da noite para o dia. Ademais, sem ela, como conseguiríamos superar o Inverno... e recomeçar o ciclo?

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras -
luciahelena@comerciodafranca.com.br