16 de março de 2026

O abestado


| Tempo de leitura: 5 min
Tiririca não faz qualquer promessa, ridiculariza o horário eleitoral e zomba dos políticos. ruim para todos nós. |Menos para ele
"A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos”
Sir Winston Churchill, primeiro-ministro britânico.


Bombou. Tiririca, alter-ego do humorista Francisco Everardo Oliveira Silva, é o grande fenômeno desta campanha eleitoral. Nenhum outro candidato, de qualquer partido ou posição ideológica, consegue chegar perto da comoção provocada pelo palhaço Tiririca. Não há aqui qualquer ironia. Tiririca é Tiririca - e palhaço - desde criancinha. O apelido veio quando, aos oito anos, começou a se apresentar no circo. Passou grande parte da vida no picadeiro de tendas improvisadas no sertão nordestino. Era assim que ganhava a vida até despontar para o “sucesso” nos anos 90.

Tudo aconteceu mais ou menos por acaso. Tiririca havia gravado um CD ajudado por alguns donos destas tendas típicas, que se cotizaram para cobrir as despesas. Dois hits que viriam a se tornar clássicos de seu repertório, Florentina e Eu Sou Chifrudo, explodiram nas rádios nordestinas. O sucesso regional atraiu as atenções da Sony Music, que comprou os direitos autorais e relançou o CD nacionalmente. Mais de 1,5 milhão de unidades foram vendidas em todo o país.

Catapultado à condição de estrela ascendente da indústria da música, Tiririca deixou o Nordeste rumo ao Sul Maravilha. Lançou novos CDs, participou de programas de TV, ganhou quadro fixo em humorísticos, transitou por diversas emissoras. Enfrentou denúncias de racismo, foi processado, perdeu espaço. Veio o ostracismo. Desempregado, ensaiou retorno a distintas emissoras de TV ao longo dos últimos anos. Não conseguiu.

Sem rumo, sem dinheiro e sem nenhum medo de parecer ridículo, Tiririca resolveu buscar abrigo numa cúpula bem maior do que a dos cirquinhos onde se apresentava no interior do Nordeste: o Congresso Nacional. Certamente interessado no salário e nos cargos comissionados para os quais pode indicar quem bem entender e sem qualquer preocupação programática aparente, o palhaço filiou-se ao semi-desconhecido PR (Partido da República), cumpriu as formalidades e lançou-se candidato a deputado federal. Tudo, é bom que se recorde, absolutamente dentro da lei.

A aventura do palhaço revelou-se um sucesso instantâneo. Muito mais do que qualquer outro político, Tiririca é, desde já, o grande vencedor desta disputa eleitoral. A duas semanas do pleito, projeções de alguns institutos de pesquisa apontam o candidato com potencial de superar um milhão de votos. Se confirmado, Tiririca terá votos suficientes para tirar o PR da condição de partido nanico. Os atuais 3 deputados federais da legenda podem chegar a 7 ou 8 graças ao surpreendente “puxador” de votos. Nada mal.

O resultado é ainda mais impressionante se analisada sua estratégia de campanha. Em seu programa, quem aparece pedindo votos é exatamente o palhaço, vestido a caráter, e não a pessoa física de Francisco Everardo de Oliveira Silva. Tiririca não faz qualquer promessa, ridiculariza o programa eleitoral e zomba da classe política. “O abestado”, como se auto-intitula, tem como bordão “Pior do que tá não fica, vote Tiririca”. Aparece dançando e pedindo votos para “melhorar de vida”. Confessa, sem constrangimentos, que não tem a menor idéia do que faz um deputado federal. E, nos últimos dias, ainda colocou os pais - vestidos, igualmente, de palhaços - para pedir votos. Diz que segue outros candidatos. “As pessoas se comovem com família na televisão”, provoca. “Pede, pai. Voto”.

Tiririca não é o único estranho no ninho. Também querem o voto dos eleitores paulistas para ocupar uma vaga de deputado federal ou estadual os cantores Frank Aguiar (PTB), Juca Chaves (PR), Kiko e seu irmão Leandro, do KLB (DEM), Agnaldo Timóteo (PR), Simony (PP), Leci Brandão (PcdoB) e Reginaldo Rossi (PDT); o humorista Batoré (PP); a “modelo e atriz” Mulher Pêra (PTN); o estilista-que-roubou-um-vaso-no-cemitério Ronaldo Ésper (PTC); e o “pé de anjo” Marcelinho Carioca (PSB). Para o Senado, Netinho de Paula (PcdoB), milionário pagodeiro convertido em comunista, lidera as pesquisas de intenção de voto, indiferente ao histórico familiar marcado por brigas e agressões contra a própria mulher. Nada disso parece incomodar o eleitor. É esse, exatamente, o problema.

Em democracias muito mais sólidas, como a norte-americana, não é incomum que artistas migrem das telas para a vida pública. Ronald Reagan, ator nos anos 40 e 50, virou presidente dos Estados Unidos nos anos 80. Arnold Schwarzenegger, mundialmente famoso como protagonista de O Exterminador do Futuro, é hoje o respeitável governador da Califórnia, cargo para o qual foi eleito e reeleito, mesmo sem ter nascido nos Estados Unidos. Na República Tcheca, o escritor Vaclav Havel foi eleito duas vezes presidente e, no Peru, Mario Vargas Llosa, outro premiadíssimo escritor, quase alçou o posto máximo nos anos 90, mas acabou derrotado por Alberto Fujimori.

A diferença de todos esses casos para o Brasil de Tiririca é que os famosos de outras paragens aproveitam a notoriedade para tratar política como coisa séria. São celebridades, mas apresentam propostas, defendem pontos de vista, discutem caminhos. No Brasil, política virou lugar de deboche. E o eleitor, que deveria ser o mais preocupado com tudo isso, parece não estar nem um pouco interessado em coisa alguma. Vota porque é obrigado. Como vota por votar, pensa que tanto faz quem vai ser o escolhido. Se for alguém conhecido e engraçado, ainda que não tenha qualquer proposta, tudo bem. Pelo menos um milhão de pessoas pensa assim em São Paulo, todos eles prováveis eleitores do palhaço.

É muito ruim para todo mundo. Menos, é claro, para o “abestado” Tiririca. Que, no dia 1º de janeiro, deve tomar posse no Congresso Nacional como um dos 70 escolhidos nas urnas para representar - e defender - o interesse dos paulistas. Não é impossível que outros tantos cantores, atrizes e celebridades de nenhuma relevância lhe façam companhia no emblemático edifício projetado por Oscar Niemeyer, onde a democracia brasileira deveria ser permanentemente vigiada e defendida E os projetos que nos conduziriam rumo a um futuro melhor, apresentados e debatidos. Agora, por gente como Tiririca. Quem disse mesmo que pior não fica?


CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do
Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br