É no mínimo curioso que dois filmes sobre Coco Chanel tenham sido produzidos no mesmo ano, 2009, com pontos de vista diferentes sobre aquela que se tornou o maior ícone da moda em todos os tempos. Não fossem tantas as licenças poéticas, poderíamos dizer que Coco antes de Chanel, da diretora Anne Fontaine, prepara o espectador para Coco Chanel e Igor Stravinsky, dirigido por Jan Kounen a partir de roteiro de Cris Greenhalgh. O primeiro apresenta a jovem Gabrielle no preâmbulo de sua vida profissional; o segundo mostra a estilista já no seu processo de mitificação, para o qual, a bem da verdade, ela muito contribuiu acrescentando fatos a sua infância e juventude que até hoje restam controversos.
A sucessão de belas imagens de Paris e arredores no filme de Kouen conta o encontro eletrizante de Chanel e Stravinsky no ano de 1920. Antes, o diretor constrói um preâmbulo para mostrar a traumática apresentação do músico no Teatro Champs Elysées, em 1913, tendo Chanel na platéia. Tudo nesta cena que ocupa os primeiros dez minutos do filme está indiciado para revelar o que de fato foi determinante na atração recíproca. E não será por gratuidade que as cenas sejam retomadas, de forma reelaborada, nos últimos minutos. Chanel, em sua primeira aparição na tela, opõe-se a todas as mulheres presentes, que se vestem com modelos muito pesados e escuros. Ela traja um vestido branco, leve, fluido, sofisticadamente simples. Stravinsky, contrariamente ao que esperava a platéia conservadora (“acostumada a assistir ao Lago dos Cisnes” como define bem o empresário do artista), exibe uma obra, A sagração da primavera, recebida com estranhamento e fúria. É tão negativa a reação dos presentes que a polícia é chamada para acalmar os ânimos. Neste momento a câmera faz close em Chanel, para fixar seu sorriso, levemente zombeterio, como se dissesse em relação aos que protestavam: “ Não entenderam nada.”
Chanel, como Stravinsky, está antenada ao início do século XX, aos tempos ditos modernos, e elege o novo como caminho único. Stravinsky, como Chanel, radicaliza nos temas, nos motivos, nas dissonâncias revolucionárias. Ambos são preto no branco e esta visibilidade incomoda aos que preferem outros matizes do espectro solar. Pois é exatamente a afinidade estética, a atração especular que vai levá-los a consumar uma paixão intensa, que precisou ser rompida mas não foi esquecida, pelo menos no filme.
Mas se Chanel esteve à frente de seu tempo, antecipando-se ao movimento feminista, libertando a mulher não só do espartilho mas também de muitas convenções, concedendo-se liberdades até então impensadas ao gênero, Stravinsky só foi revolucionário na sua arte: na vida privada estava profundamente vinculado a um modelo de casamento que privilegiava a família, os filhos, e não as paixões. É esta constatação, de que há uma dicotomia entre o homem e o artista, que leva Chanel a encerrar o caso.
O filme, com peças curtas de Stravinsky na trilha sonora, deve ser visto com ouvidos atentos e de olhos bem abertos. De não serem esquecidas as sequências de cima para baixo, os mergulhos que criam vertigens, os jogos de imagens no espelho, os closes bem trabalhados, a câmera que de repente caminha junto com os personagens. Os diálogos concisos, de poucas e curtas falas, correspondem à estética do menos é mais que caracterizou o estilo pessoal e a arte de Chanel. De vez em quando ouvimos uma frase que perdura na memória, como no momento em que o músico diz à estilista : “Você precisa esquecer de si mesmo para se perder na música”. Ou quando a mulher dele interroga Chanel: — “ Não gosta de cor?”, e ela reponde: - “Desde que seja preto”.
Não poderia encerrar este comentário sem falar da atuação marcada por semitons de Mads Mikkelsen como Stravinsky: pressões, frustrações, remorsos, desejo, ciúme, raiva, alguma pequena alegria - tudo ele consegue expressar no rosto talhado para ser sucessivamente habitado por emoções diversas. Inesquecível também é o desempenho de Anna Mouglalis que consegue criar uma protagonista bem próxima do que a história nos mostra: objetiva, direta, quase rude nos relacionamentos; dedicada ao trabalho; perfeccionista em relação a si mesma; exigente com os de sua convivência. E consciente de seu valor de personalidade que dividiu águas no mundo da moda, onde tudo passou a ser datado como antes e depois de Chanel.
Serviço
Título: Coco Chanel e Igor Stravinsky
Diretor: Jan Kouen
Roteirista: Cris Greenhalh
Nacionalidade: francês
Onde encontrar: nas locadoras
JAN KOUNEN
Jan Kounen é nome pouco conhecido no Brasil. Nascido na Holanda em 1964, escolheu morar na França, para onde se mudou na adolescência. Sua biografia é rica e seus temas díspares chamam a atenção tanto em trabalhos publicitários como em curtas e longas. Ter dirigido em 2009 o filme resenhado ao lado surpreendeu os franceses que o conhecem, pois Coco Chanel e Igor Stravinsky foge completamente a tudo o que tinha feito até então.
Kouen formou-se na qualificada Escola de Artes Decorativas de Nice, onde realizou os primeiros curtas. Ao concluir a faculdade foi trabalhar como assistente numa produtora de vídeos e documentários. Aos 25 anos ganhou um prêmio no Festival do Filme Fantasioso de Avoriz. Título do curta: Gisele Kerosene.
A partir de 1990 trabalha exclusivamente com publicidade. Duas peças receberão prêmios e ganharão espaços na mídia especializada: Vibroboy e Pequeno capuz vermelho. O primeiro longa, Dobermann, adjetivado pela crítica como excêntrico e violento, teve como protagonista Vincent Castel, que vimos por aqui contracenando com Débora Bloch no filme brasileiro À deriva.
No final da década de 90, atraído pela ayuasca, exila-se no Peru e no México, aprofunda-se na cultura xamânica bebendo em fontes que o inspirarão a criar a série Outros mundos, para a televisão. Em 2008 Kouen preside o júri do Mobile Film Festival, onde mostra o seu paroxístico 99 francos. Em 2009 Coco Chanel e Igor Stravinsky é escolhido para abrir o Festival de Cannes.