Verão de 1962. Manhã de domingo.
O grande programa na então sossegada Franca, após a missa, passava-se no Clube dos Bagres. Brincadeiras na piscina média e na “grandona”: jacaré, caldo, ponta, bomba, competição... Meio-dia e o apito do zelador, “seu” Antônio, anunciava o fim do período de lazer da manhã. Retorno só às três da tarde, já que nadar após o almoço nem pensar.
Era sair do clube em bando, percorrer esfomeado o trajeto de volta para casa. Lembro-me de alguns companheiros: André Mota, Toninho Vissoto, Messias, Sebastião Miranda, Fransérgio, Pinheirinho, Henrique... A cada quarteirão, um tomava direção diferente. Eu morava mais longe e, por isso, caminhava sozinho as últimas quadras.
Levava comigo, exibido como ninguém, um pequenino rádio portátil. Era moda na época. Como também estava no gosto de muitos a música Marcianita, que era a que eu escutava naquela manhã. A coqueluche do momento dizia da paixão de um rapaz por uma imaginária habitante de Marte. A certa altura da música, o cantor melodiava dizendo: Marcianita, branca ou negra, bonitinha, magrinha, baixinha ou gigante serás, meu amor, a distância nos separa, mas nos anos 70 felizes seremos os dois...
“Nos anos 70”! Hoje, os idos e rememorados anos 70. Mas naquele domingo representava um futuro dourado. Aos 70 eu teria vinte anos, poderia dirigir, namorar, viajar, dançar ao som das big bandas. Ah, quantas marcianitas desfilaram na tela das paixões juvenis, hoje todas vencidas por dois encantadores olhos castanhos que às vezes me olham curiosos.
Almoço.
Um fatacaz de frango assado.
Na média, meu pai era um homem severo, enérgico, dinâmico. Mas no domingo, ficava em casa, descansando das viagens da semana, porquanto trabalhasse como cirurgião-dentista e professor de ciências nos três períodos do dia, em Franca e algumas cidades vizinhas. Sábado, pescaria. Domingo, em casa. E eu esperava a melhor parte, aquela que dizia que a semana teria valido a pena, e que a outra semana que começaria no dia seguinte também seria prazerosa. A melhor parte se resumia num riso aberto e franco de meu pai, à mesa, por um motivo qualquer, o abraço dado em minha mãe e o mundo entrava em paz. Mas enquanto o momento não vinha, eu engolia em seco a comida diferenciada de domingo, esperando ansioso a manifestação paterna. E invariavelmente ela vinha, cedo ou mais tarde. E quando vinha, tudo ficava harmonioso. Eu e meus irmãos ríamos juntos e o domingo seguia seu rumo.
Os programas de TV entravam, ainda, em poucos lares francanos. Restavam as matinês das duas da tarde: cine Avenida e cine São Luiz. No Odeon, mais elitizado, era às dez da manhã.
Chegava outro momento esperado por uma semana. Mais excitante que a sessão de cinema era a troca de gibis à porta da entrada do cine Avenida. Eu era assíduo frequentador desse clube ímpar de garotos. Acomodava nos braços cansados da natação a pilha de gibis já lidos e ia trocá-los com outros meninos. Não era como hoje: comprar, ler e jogar fora. Não! Era comprar, muito raramente, colecionar, ler e trocar: um Mandrake por um Capitão Marvel, um Falcão Negro por Roy Rogers, um Flash Gordon por Tarzan... Havia ainda o Kid Colt, Durango Kid, Zorro e Tonto. Luluzinha era apenas para os maricas.
Pronto, a leitura da semana estava garantida, até tudo se repetir no domingo seguinte.
Os domingos seguintes formariam um corredor pelo qual o menino passaria e se tornaria o adulto. Nesta caminhada, tombaram alguns colegas, muitos tios, o sorriso de meu pai silenciou-se para sempre, o abraço de meu irmão mais velho virou saudade, meus heróis se desfizeram, e em pó ganharam os ares etéreos e inatingíveis.
Hoje, outra alegria me arrebata o peito: sou eu próprio o herói de minha família; e quando eu solto meu sorriso franco e abraço minha mulher, as minhas filhas também sorriem e para elas o mundo está em paz.