09 de julho de 2026

Preso pela palavra


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Neste dia reservado à comemoração dos 188 anos de independência do Brasil, a população tem oportunidade de ouvir a execução do Hino Nacional nos mais diversos eventos. No entanto, há um obstáculo na letra do Hino Nacional. Para começar, bem poucos sabem cantar todos os versos.


A maioria consegue acompanhar a primeira estrofe e olhe lá. Depois, somente os lábios se mexem, como se estivessem pronunciando as palavras.


A prova dessa encenação musical pode ser comprovada antes do início das partidas de futebol. Jogadores e torcida abrem o peito somente no começo da execução melódica.


Na sequência, apenas acompanham a gravação, fazendo de conta que estão cantando. Às vezes, nem isso. Passam a olhar para os lados. Outros, até conversam.


De outra parte, a barreira maior frente à letra do Hino Nacional está no fato de os versos terem sido escritos na ordem indireta da frase, por Joaquim Osório Duque Estrada, em 1909.


O entrave da significação de algumas palavras poderia ser resolvido com uma consulta ao dicionário.


Muita gente estranha o ano em que o poema foi escrito. Apenas a melodia foi composta em 1831, por Francisco Manuel da Silva, para comemorar a primeira década de independência. Na época, a letra do Hino Nacional era de Ovídio Saraiva de Carvalho.


A atual composição segue o padrão poético de inversão da ordem das palavras: ‘Ouviram do Ipiranga as margens plácidas/ De um povo heróico o brado retumbante/ E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,/ Brilhou no céu da Pátria nesse instante’.


Povo preso pela palavra não consegue ser independente.


Caso o poema tivesse sido escrito na sintaxe tradicional: sujeito+verbo+complemento, seria fácil de compreender que a primeira estrofe descreve simbolicamente o momento da independência.


Um exercício básico para ler texto em verso é encontrar os verbos. Nos quatro versos iniciais, há dois: ouvir e brilhar. Ambos estão na terceira pessoa do pretérito perfeito do indicativo.


Basta descobrir quem praticou a ação. Ouviram está no plural. O sujeito deve estar também: as margens plácidas (calmas) do (riacho) Ipiranga ouviram o brado retumbante (grito estrondoso) de um povo heróico.


O povo, aqui nesse caso, é a comitiva que acompanhava D. Pedro no retorno de Santos ao Rio de Janeiro.


Ao terminar de subir a serra, antes de São Paulo, nas margens do riacho Ipiranga, o ainda príncipe encontra o emissário da notícia que decretava sua volta imediata a Portugal.


E, nesse instante, 7 de setembro de 1822, D. Pedro, que depois viria a ser o primeiro rei do Brasil, tira a espada da bainha e grita: Independência ou Dilma. Epa! Esse nome agora rima com tudo. Naquela época, ela nem era nascida. Voltando ao Hino Nacional, ‘brilhou’ está no singular. Então: O sol da Liberdade brilhou no céu da Pátria em raios fúlgidos (brilhantes).

 

Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br