11 de julho de 2026

‘Há um mundo novo que esta gente se recusa a ver, a admitir’, rebate Ignácio Loyola


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O escritor Ignácio de Loyola Brandão, 74, ficou indignado com a reação dos pais e professores que teceram críticas ao uso do conto "Obscenidades para uma dona de casa" nas escolas. Os ataques não aconteceram apenas em Franca. Em Itapetininga, uma escola se negou a distribuir o livro contendo o texto aos estudantes e, em Jundiaí, os exemplares foram dados aos alunos e depois recolhidos. “Chega de censura. Já sofri com a ditadura, agora estamos no ano 2010. O mundo está em rede, todos se conectam, se comunicam, se falam, sabem tudo”, disse o autor, que estava em Maceió na última semana, por e-mail.

 
Ignácio de Loyola Brandão disse que o conto foi escrito há 27 anos, traduzido para dez línguas, usado em vestibulares, transformado em monólogo teatral e agora está reunido na coletânea organizada por Ítalo Moriconi, “Os cem melhores contos brasileiros do século” - o livro reúne também textos de Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Luiz Fernando Veríssimo, Lygia Fagundes Telles e outros escritores.
 
Loyola Brandão ressalta que a juventude está habituada a ter contato direto com conteúdo sobre sexo e os pais precisam “enfrentar e admitir” essa realidade. Para ele, muitos pais são “repressivos, moralistas, hipócritas que acabam produzindo um filho com duas personalidades, uma para dentro de suas casas e outra para fora”. “Estes pais que se escandalizam com as palavras num conto não sabem que o mundo do jovem é outro hoje. Eles estão vendo pornografia pela internet. Eles sabem todas as obscenidades, eles vão aos bailes funk e ali transam. Essa juventude está colocando na internet fotos nuas deles e das amigas. Estes pais não sabem que seus filhos (e filhas) levam camisinha no bolso e nas bolsas? Estes pais orientaram seus filhos para fazer sexo seguro? Há um mundo novo que esta gente se recusa a olhar, ver, admitir”. 
 
O autor ainda questiona a falta de planejamento das aulas pelos professores antes de entrarem em sala de aula. “Uma professora de Guarulhos entrou na classe, abriu o livro, começou a ler o conto e engasgou. Se disse impossibilitada de continuar. Que professora é esta que não leu antes? Não preparou a aula?”.
 
O escritor disse que se as pessoas se desprenderem da linguagem, conseguirão extrair outras interpretações do texto. Ele estimula a leitura, principalmente pela revelação final no material. O conto narra a história de uma dona de casa que recebia pelos Correios cartas com descrições de sexo explícito. No final, o escritor revela que a própria personagem escrevia os textos e enviava para si mesma. “Temos um problema enorme com o professorado incompetente, ineficiente, fora de época. Se alguém ler meu conto com atenção verá a poesia, a solidão, a angústia, o humor, a sensualidade. Leiam o conto até o final para ter uma surpresa imensa”.