09 de julho de 2026

Paraty: cultura da leitura


| Tempo de leitura: 7 min
A francana Vanessa Maranha levou a filha Nina Maranha Coelho, de 7 anos, para conhecer a Feira Literária de Paraty e também participar da Flipinha, com as contadoras de histórias

A psicóloga, jornalista e escritora francana Vanessa Maranha, selecionada para participar de uma oficina literária na última Flip, Feira Literária de Paraty, falou ao Comércio sobre sua experiência e impressões. Ela esteve presente na oficina intitulada De cerca nadie es normal (De perto ninguém é normal, frase de Caetano Veloso), direcionada a apenas trinta convidados e conduzida por Julio Villanueva Chang, editor da revista peruana Etiqueta Negra, e também como ouvinte das discussões de Lionel Schriver, Patrícia Melo, Isabel Allende, Peter Burke, Robert Darnton, AB Yehoshua, Azar Nafisi, Salman Rushdie e Ferreira Gullar. “Todos esses escritores trataram, como ‘antenas da raça’ que são, de temas contemporâneos”, diz Vanessa, que destacou o fato de que em Paraty “já está estabelecida a cultura da leitura, da valorização das letras e das artes”. Por isso a Feira “tem grande importância local e nacional, sem dúvida, na medida que coloca o Brasil no foco das cabeças pensantes (...). A Flip é uma referência em organização e trabalho conjunto.”


Comércio da Franca - Foi a primeira vez que participou da Flip? Qual a sua impressão do evento?
Vanessa Maranha -
Estive, digamos, no making of da Flip em 2007, pois estava fazendo turismo em Paraty no período. Nessa 8ª edição, participei de tudo o que me foi possível e guardei a impressão de um evento bonito, grandioso, muito bem organizado em todos os detalhes. É verdadeiramente uma festa à literatura. O público, imenso, é bem específico, formado por gente que valoriza manifestações culturais, quase uma tribo.
 

CF - Quase 40 autores marcaram presença no evento. Você teve contato com eles? Quais? Algum em especial? Como foi?
Vanessa -
Pessoalmente não tive contato com nenhum autor. Eu os vi de longe, durante as mesas na Tenda dos Autores ou, às vezes, caminhando pelas ruas ou sentados em barzinhos. Não há assédio, senão da imprensa credenciada, o que não era o meu caso. Participei como ouvinte das discussões de Lionel Schriver, Patrícia Melo, Isabel Allende, Peter Burke, Robert Darnton, A.B. Yehoshua, Azar Nafisi, Salman Rushdie e Ferreira Gullar. Todos esses escritores trataram, como ‘antenas da raça’ que são, de temas contemporâneos.
 

CF - De toda a programação da Flip, qual o tema discutido/abordado que mais te inspirou? Por que?
Vanessa -
Eu destacaria a mesa com Salman Rushdie, mediada por Silio Boccanera. Sua fala já seduzia de entrada: “não tenho interesse nas pessoas que têm respostas. Gosto das que têm perguntas”. Rushdie é o autor de um dos romances mais interessantes que li, Os filhos da meia-noite. Alçou notoriedade com a fatwa declarada na década de 90 pelo aiatolá Khomeini contra Os versos satânicos, tendo tido a cabeça a prêmio pelo islamismo. Gostei muito da forma como ele contornou as provocações de Boccanera para que emitisse uma opinião sobre as arbitrariedades que continuam a ser perpetradas no Irã. Conseguia a mágica da contundência entremeada com a leveza do humor em suas respostas. Enfim, o que me ficou dessa palestra foi a coragem, em todos os sentidos, desse homem. Não admira, portanto, a beleza e a força de sua obra. A chilena Isabel Allende também deu um show de simpatia. Talvez por viver há tanto tempo na América, desenvolveu aquele delicioso senso de auto ironia anglo-saxão. Ri de si própria, o que é uma liberdade e tanto, não? Novidade para mim foi saber que em seu próprio país não é amada, ela, que ajudou a elevar o nome do Chile mundo afora.
 

CF - Fale um pouco sobre a sua participação na oficina literária.
Vanessa -
Foi uma oficina intitulada De cerca nadie es normal (De perto ninguém é normal, frase de Caetano Veloso), conduzida por Julio Villanueva Chang, editor da revista peruana Etiqueta Negra, desenvolvida em parceria com a Folha de SP. A proposta dava continuidade ao impacto da presença de Gay Talese na edição anterior da Flip e tratava de jornalismo literário.
 

CF - O tema da oficina foi ‘Perfil’ -a forma factual e literária de descrever alguém, famoso ou anônimo. O que foi abordado?
Vanessa -
Abordou técnica e estilo, basicamente. Ele é um grande editor de texto. Mostrou-nos, por exemplo, (por meio das mensagens eletrônicas que trocava com o repórter) todo o processo de composição do perfil da atriz pornô húngara e então deputada na Itália Cicciolina. Para ele, toda informação inútil é importante para construir um perfil, uma história. Na impossibilidade de entrevistar García-Márquez, avesso notório à imprensa, ele entrevistou o seu dentista e descobriu coisas incríveis sobre o sorriso do colombiano. Enfiou-se na cozinha do catalão Ferran Adrià, no célebre “El bulli”, para mostrar como se dava ali, nos ermos da Costa Brava, a busca pela perfeição, concluindo o que se desvela um oximoro: aquilo é uma usina de criatividade. Mostrou que para se descrever uma maratona em NY, por exemplo, pode ser muito mais interessante entrevistar o último colocado do que o primeiro.
 

CF - Como as aulas foram ministradas na prática?
Vanessa -
As aulas se teceram a partir de grandes textos, grandes achados, eu diria, que foram produzidos nesse formato. Foi uma longa reflexão sobre a fuga ao óbvio, sobre a construção de formas de impactar o leitor, formas pouco usuais de traduzir um acontecimento. Os editores de jornais e revistas puderam palmilhar o processo de edição, a forma didática (e incansável) com que o peruano instiga e motiva seus repórteres na busca de soluções para as dezenas de perguntas que é capaz de formular. Chang, que tem formação em Pedagogia e um olhar humanístico, repetia: “não vamos escrever como Dostoiévski escrevia. Ele não tinha TV nem internet, então, precisava descrever tudo. O que podemos é dar os nossos toques sensoriais, as nossas sugestões, matizar, dar sentido aos detalhes, não simplesmente enumerá-los”. Depois disparava: “ensina-se técnica, não se ensina talento”.
 

CF - Qual é a ligação entre o tema e a arte de Gay Talese?
Vanessa -
Gay Talese é um dos precursores desse movimento chamado jornalismo literário, ou Novo Jornalismo, que incorpora ao jornalismo elementos antes restritos aos textos literários. Ele é uma espécie de “Papa” nessa área e esteve na Flip em 2009, onde causou sensação. A ideia dessa oficina foi estender a discussão em torno dos alcances e dos limites desse tipo de jornalismo. Julio Villanueva Chang é um de seus maiores representantes na atualidade. Na oficina, dissecamos o seu célebre artigo Frank Sinatra está resfriado, um perfil que vale por uma obra-prima literária.
 

CF - Para participar, você teve que passar por um processo de seleção (apenas 30 pessoas foram escolhidas). Quais foram os critérios avaliados?
Vanessa -
Solicitaram um texto em formato jornalístico e o currículo, para a escolha. Não foram mencionados os critérios, mas eu soube que o texto teve o maior peso na seleção. Grande parte dos escolhidos era composta de jornalistas. Havia gente de São Paulo, do Rio, do Sul, de Portugal e também pessoas de outras áreas, gente que cultiva a escrita. Conheci ali advogados, tradutores, escritores.
 

CF - A oficina foi realizada durante três dias no período vespertino. Deu para passear pelos pontos turísticos e culturais de Paraty?
Vanessa -
A oficina estava programada para ter 1h30 de duração, mas sempre extrapolávamos esse limite, às vezes chegando a 2h30, tamanho o interesse. Depois, havia a programação da Tenda dos Autores, cujos ingressos eu já havia adquirido. Dessa vez, fiquei basicamente circulando nas tendas da festa, na Livraria da Vila, mas tudo isso fica no centro histórico, de modo que o que há de melhor para ver na cidade, como galerias de arte, museus, restaurantes, badalação, está ali mesmo. Foram comigo meu marido José Antonio e minha filha Nina; ela participou de alguns dos eventos da Flipinha, com as contadoras de histórias. Levamos a Nina à fazenda Murycana, histórica, do tempo do Império, que tem um museu muito interessante.
 

CF - Na sua opinião, qual é a importância da Flip?
Vanessa -
A Flip é um evento catalisador. É presidida pela editora britânica Liz Caulder, que garante, por meio de sua credibilidade, a presença de prêmios Nobel, dos grandes nomes da literatura mundial naquele local tão pitoresco. Idealizada por uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), tem como objetivo primário, revitalizar e preservar o patrimônio local, bem como um interessantíssimo cunho social. As escolas de Paraty e dos vilarejos próximos se envolvem o ano todo com o preparo da festa. Há ali já estabelecida a cultura da leitura, da valorização das letras e das artes. Tem grande importância local e nacional, sem dúvida, na medida que coloca o Brasil no foco das cabeças pensantes, quando está ocorrendo. A Flip é uma referência em organização e trabalho conjunto.