10 de julho de 2026

Kobayashi diz:“Vim preparado para desvendar os mistérios do futebol”


| Tempo de leitura: 12 min
comandante - O técnico Paulinho Kobayashi chegou na Veterana colocando ordem na casa: dos vestiários até o gramado, ele interveio, estabeleceu seu método de trabalho e os bons resultados apareceram

A Francana recebe o Batatais, às 11 horas de hoje, no Lanchão, precisando vencer para entrar na zona de classificação à segunda fase da Copa Paulista de Futebol. Este será o quarto jogo da equipe sob o comando de Paulo Ricardo Kobayashi, 40. O grupo vem animado por duas vitórias, sobre o rival Comercial, por 1 a 0, e Sertãozinho: 3 a 1. Ambas fora de casa. Na primeira, um clássico regional disputado em Ribeirão Preto, a veterana - lanterna naquela rodada - surpreendeu o líder da Copinha e os próprios torcedores da Francana, além de quebrar um tabu de 12 anos. “A equipe conseguiu mostrar dentro de campo tudo o que eu tinha pedido naquela semana”, disse o técnico. Não é pouco. Nas quatro rodadas anteriores, a Veterana teve dois treinadores: Gilmar Batista e Zinho, gestor que assumiu as funções de campo excepcionalmente.


Quem acompanha os treinos é testemunha de que Kobayashi é exigente. Quando chegou (há três semanas), encerrou os testes, enxugou o elenco, organizou a casa do atleta, os vestiários e agora tenta colocar o time em ordem. “Estamos profissionalizando a Francana a cada dia. Muita coisa já mudou”, diz. A seu favor, o treinador conta com 20 anos dedicados ao esporte. Natural de Osasco, Kobayashi foi descoberto aos 12 anos por um amigo de seu pai enquanto brincava com a bola em um intervalo de jogo de várzea. Seu pai, vendedor de peças para empilhadeiras, jogava torneios em Carapicuíba. Aos 13, foi para a equipe de juniores do Palmeiras, onde ficou por seis anos. Aos 19, passou pelo São Caetano e se profissionalizou dois anos depois. Ao lado de outras estrelas, como Serginho Chulapa, participou do surgimento de uma força no futebol paulista: o clube teve três acessos consecutivos. Só parou ao atingir a elite do Paulistão.


Sua carreira de meia-atacante ficou marcada mesmo pelo período que ficou no Santos. “Foi apenas um ano. Doze meses que os torcedores não esquecem. Lá, tenho as portas abertas. Tanto é que fiz estágio com Vanderlei Luxemburgo e Dorival Júnior. A diretoria muda, mas todos têm um carinho muito grande por mim”, disse Kobayashi.


O ex-atleta também faz parte da história do América de Natal (RN). “Era semifinal da Copa Nordeste com dois jogos contra o ABC - clássicos entre os dois grandes times da capital. Fiz cinco gols nas duas partidas, um deles do meio do campo, e eliminamos o ABC. Fomos campeões em cima do Vitória da Bahia, com Petkovic e outros jogadores de alto nível”, lembra. Como jogador, Kobayashi ainda esteve na Grécia, onde disputou cinco temporadas.


Sua carreira de jogador teve fim no ano passado no Bragantino, após o Paulista. No início de 2010, em sua primeira experiência como técnico, Kobayashi viu a Portuguesa Santista ser rebaixada à série A3 do Estadual. Agora quer aproveitar a chance e, como técnico, ajudar a reerguer a Francana. Na semana passada, o treinador conversou por duas horas com a reportagem do GCN Comunicação e revelou que seu objetivo é chegar aos times grandes. Vencer como técnico da mesma forma que fez quando estava dentro das quatro linhas.

 

Comércio - Ser treinador é mais fácil do que ser jogador?
Paulinho -
É muito mais difícil. Porém, é algo que eu esperava, que tinha como foco em minha vida. Sempre fui um técnico dentro de campo e, nos últimos cinco anos, via as atitudes dos treinadores. Quando resolvi parar, no ano passado, já estava preparado. Fiz alguns estágios que acrescentaram ainda mais a minha vida e hoje estou nessa luta, muito satisfeito com o trabalho. Assim como cheguei como jogador, vou chegar também aos times grandes como treinador.
 

Comércio - Como recebeu a proposta do Zinho (gestor de futebol do clube) para você assumir a Francana?
Paulinho -
Sempre gostei de desafios. Quando o Zinho me convidou, aceitei contente porque quem quer chegar preparado a um time grande tem de começar de baixo. Sabia que existiriam dificuldades e já vim preparado para desvendar esses mistérios que aparecem no futebol.
 

Comércio - Que surpresas você teve ao chegar aqui?
Paulinho -
Não conseguia acompanhar os testes - eram muitos - nem treinar um time. A primeira coisa que fiz foi diminuir o elenco, enxugar. Depois iniciamos a arrumação desde a Casa do Atleta, passando pelos vestiários para que quando chegasse ao campo tudo estivesse nos seus devidos lugares.
 

Comércio - A vitória da Francana em cima do Comercial depois de 12 anos, no último dia 14, foi um grande resultado para você. O que passou pela sua cabeça nesse jogo?
Paulinho -
Procurei passar aos atletas que o resultado era fundamental para que pudéssemos entrar na competição. Se saíssemos de lá com uma derrota, o Comercial abriria 10 pontos. Fomos felizes. A equipe conseguiu mostrar dentro de campo tudo o que eu tinha pedido naquela semana. Estão todos de parabéns. E acho também que tabu foi feito para ser quebrado, não é?
 

Comércio - Qual o futuro da Francana com os jogadores que você tem?
Paulinho -
Acho que os atletas que ficaram foram os melhores qualificados. Temos que valorizá-los. Temos que estar focados em nossos objetivos. O primeiro deles é passar essa fase, depois vem a segunda fase, até chegar ao principal que é o título. Todos têm de estar com o mesmo pensamento.
 

Comércio - Quais equipes mais o marcaram?
Paulinho -
Minha passagem pelo Santos me marcou muito. Até hoje as pessoas acham que eu tive a base no Santos, que eu joguei muitos anos lá e, na verdade, foi simplesmente um ano. Porém, marcou tanto o torcedor, que ele sempre lembra meu nome. Minha base foi no Palmeiras, durante seis anos, e ninguém lembra que joguei lá. O América de Natal também me marcou porque consegui três acessos e um título da Copa Nordeste, quando fui artilheiro da competição.
 

Comércio - Qual é o lance mais lembrado por você?
Paulinho -
Foram três gols. Um pelo Santos de bicicleta na Vila Belmiro; outro do meio de campo que fiz quando estava no Rio Branco (de Americana), contra o Corinthians, no Pacaembu, quando ganhamos por 1 a 0. Por fim, em Natal, um também do meio de campo.
 

Comércio - Já voltou a esses clubes? Como é a recepção dos torcedores?
Paulinho -
No Santos, principalmente, eu tenho as portas abertas, tanto é que fiz estágio com Vanderlei Luxemburgo e Dorival Júnior. A diretoria muda, mas sempre eles têm um carinho muito grande por mim. Muitos me ligam de Natal. Já estão falando até em me convidar para trabalhar lá como treinador.
 

Comércio - E como foi sua passagem pelo São Caetano?
Paulinho -
Saí dos juniores do Palmeiras e fui para o ABC. Fiquei três anos e conquistei três acessos. Quando cheguei lá, o São Caetano ainda estava na terceira divisão. Foi uma escola principalmente no lado profissional. Naquela época, em 1990, ainda tinha Luiz Pereira, Vladimir, Serginho Chulapa... Caras que eu só via na televisão, na Copa do Mundo. Acabei jogando com todos eles. Eram atletas que tinham muita qualidade.
 

Comércio - Ser atacante hoje é diferente do que foi na sua época?
Paulinho -
O futebol não era como hoje, futebol de força em que o jogador tem de ser alto e forte. Eu era velocista e tinha habilidade. O Paulo Henrique Ganso e o Neymar fazem diferença hoje justamente por isso. Têm habilidade. Acho que isso tem que ser valorizado e trabalhado na base. A base tinha que trabalhar o atleta para que ele fosse ambidestro, para que ele pudesse saber cabecear no tempo da bola... Para quando chegar ao profissional, o treinador não tenha de corrigir erros de formação.
 

Comércio - A vida de treinador é muito curta no Brasil. Se ele fica um período de quatro jogos sem vencer já é hora de trocar. Tem de ser assim?
Paulinho -
Acho que o futebol brasileiro analisa o treinador como uma mercadoria que pode ser trocada na feira. Você chega ao clube como uma linda maçã vermelha e acaba saindo como uma laranja podre. Treinador, infelizmente, vive de resultado. No primeiro jogo meu em Franca, tinha trabalhado dois dias e já fui chamado de burro. Ia ser trocado. Você ainda não implantou nenhum sistema de jogo, como pode ser chamado dessa forma? Hoje está bom porque o resultado veio, mas a partir do momento que você começa a perder um ou dois jogos, você não presta.
 

Comércio - Você tem alguma tristeza, desilusão com o futebol?
Paulinho -
A tristeza que carrego é o fato de não ter mantido a Portuguesa na A3. Isso apesar de eu ter pego apenas os últimos jogos e não tê-la livrado por causa de uma combinação de resultados das outras equipes. É uma tristeza para qualquer pessoa que trabalha com futebol saber que a equipe que está ou dirigindo ou jogando caiu de divisão.
 

Comércio - Como você começou a jogar bola?
Paulinho -
Nunca participei de nenhuma peneira. Ia ver meu pai jogando na várzea. Um amigo dele me viu pegar a bola e brincar. Disse que eu parecia ser bom e quis me levar para jogar. Tinha 12 anos. Meu pai ficou desconfiado e foi junto. Fui campeão do Paulistinha jogando em um time misto com cinco atletas do Palmeiras, que depois me convidou para ir para lá. Não precisei fazer teste. Na época, morava em Osasco. Ia e voltava todos os dias de trem. À noite, ia para a escola.
 

Comércio - E hoje, quais são seus objetivos?
Paulino -
Chegar a ser um treinador de qualidade e trabalhar em times grandes. Ser vitorioso.
 

Comércio - Vitorioso como quem?
Paulinho -
Dorival Júnior. Um treinador jovem que começou há pouco tempo e já chegou a títulos. Não é mais uma revelação. Agora é top e está em um patamar diferente. Em São Paulo existe treinador de série A, A2, A3, de Copinha... Eu não quero ser um treinador só de Copinha. Quero ser um treinador que vá ficar na história, na memória das pessoas.
 

Comércio - Jogador sempre reclama de falta de oportunidade e, é claro, do técnico. Joga 15 minutos e diz que se tivesse mais cinco tudo seria diferente. Isso acontece com você?
Paulinho -
Isso existe muito. Eles têm que entender que, infelizmente, pela regra do futebol só podem jogar 11 e três entram. Não tem como eu colocar todos. Quem escala o time não é o treinador, é o treinamento. Se você mostrar durante a semana sua qualidade, que sua competência é maior do que a do titular, você mesmo vai se escalar. Vai provar para o treinador que tem que jogar. Não adianta querer forçar uma situação.
 

Comércio - Um dos que esperam uma chance é Júnior Preto, 25, atacante da Francana, que veio de campeonatos de chacrobol. É possível aproveitar os jogadores do chacrobol e do varzeano em times profissionais?
Paulinho -
É possível e não é difícil, desde que você tenha interesse e alguém para te colocar ali. O Júnior Preto já teve esse alguém que colocou ele ali, agora o interesse é dele. Em todo lugar existe jogo de várzea, futebol amador. Há aqueles que não conseguem chegar ao profissionalismo. Assim como existem vários que se profissionalizaram com 27, 28 anos e ficaram ricos. Isso porque foi a primeira oportunidade que tiveram e aproveitaram. O que acontece é que a pessoa tem a oportunidade, não aproveita e então coloca a culpa em alguém. É mais fácil.
 

Comércio - Qual é a dificuldade que o jogador de várzea enfrenta para se profissionalizar? Quais as diferenças?
Paulinho -
A diferença entre um time profissional e a várzea começa pela qualidade daqueles que estão na marcação. Quando um atleta de várzea vem para um time profissional, o marcador dele já está treinando há algum tempo. Na várzea, ele se sobressai porque tem força e um pouco de habilidade, mas para fazer diferença no profissional tem de estar melhor fisicamente que o zagueiro adversário. Como treinam menos, têm dificuldades.
 

Comércio - Então o Júnior Preto não está no mesmo nível que os outros?
Paulinho -
Todos os que estão na Francana hoje são atletas qualificados para jogar. É questão de oportunidade, mas eu não posso dar oportunidade para 20, 25 começarem. Só para 11. E aí, na medida em que um vai entrando, se entra bem, a gente já vai olhar ele com outros olhos. Não tenho esse negócio de ter os meus escolhidos. Aquele que tiver melhor vai jogar. Não vou proteger ninguém. O primeiro que se achar melhor do que o outro está fora comigo. Aqui não tem Paulo Henrique Ganso, Neymar ou Robinho. Estão todos nivelados na Francana.
 

Comércio - O período que você passou na Grécia foi bom? Você conseguiu a tão falada estabilidade financeira?
Paulinho -
Na época que eu jogava, não se pagava o que se paga hoje. Mas é claro que a passagem que eu tive na Europa foi muito boa por causa do lado financeiro. Tive 5 temporadas, passei por três clubes, fiz boas campanhas e muitos gols. Não sei falar inglês, mas aprendi a falar grego.
 

Comércio - Jogador brasileiro quando vai para o exterior e começa a ganhar muito dinheiro perde a cabeça. Aconteceu com você?
 Paulinho -
Muito pelo contrário, foi onde eu cresci. Aqui no Brasil só é bem remunerado quem joga no Corinthians, no Palmeiras, no São Paulo, no Santos. Para jogador de clubes pequenos a faixa salarial não é nada do que o povo imagina. Apenas 3% ganha mais que 15 mil. O resto não ganha R$ 2 mil. Aqui mesmo temos atletas que recebem R$ 500. E se aqui ganha isso, quanto você acha que ganha um atleta no Nordeste? Quando você vai para fora, você tem de saber que quando voltar sua situação é a mesma. O jogador volta com dólar no bolso e acha que pode menosprezar os outros. Só que o dinheiro acaba.
 

Comércio - Nessa época você já estava casado?
Paulinho -
Já e foi uma coisa que me ajudou demais. Quando eu era solteiro, jogando em time grande, só pensava em carro zero e em sair.
 

Comércio - E é verdade mesmo que “chove mulher” na horta de um jogador?
Paulinho -
Sim. Demais. Tem muita mulher. Elas te olham diferente. Você é feio, mas fica bonito. Foi lá fora que eu coloquei os pés no chão. Você não pode ser mais do que você é.