Aqui, como na maioria das cidades paulistas, há um clima de desagrado para com a CPFL Energia e seu CPFL Total, plano de substituição das lotéricas como locais de recebimento de contas por outras credenciadas, “enfiado” goela abaixo de consumidores.
Trabalho diariamente com quase centena e meia de cartas e postagens de leitores ao Comércio, portal GCN.net.br e ouvintes da Rádio Difusora. Estes comentaristas nos permitem perceber a temperatura com que as matérias que publicamos ou levamos ao rádio são percebidas, entendidas e digeridas. É um termômetro real. Quando o assunto “pega”, as manifestações chegam aos borbotões.
Um dos assuntos campeões destes últimos dias é o novo jeitão de pagar contas de energia elétrica, não mais nas casas lotéricas e sim em dezenas de pontos que a CPFL insiste que já existem e que estão em toda a cidade. Os endereços estão nas contas, mas as vezes, não dá certo.
Há pontos interessantes e outros nem tão, neste projeto. De ruim, a pressa e o mau jeito. Não houve um tempo de aclimatação, como diria meu avô paterno, passarinheiro. “Quando a gente troca de gaiola um passarinho velho, ele pode não se adaptar e até, morrer”. De uma hora para outra, os passarinhos velhos acostumados a pagar “contas de luz” na lotérica, viram-se em outra “gaiola”: os endereços apontados na conta, “bem perto de você, de seu endereço, em seu próprio bairro”, como divulgam os agentes da empresa.
O consumidor, acostumado a passar pela lotérica para a “fezinha”, rotinizou o pagamento da “luz” e de muitas outras contas. De repente, não mais que de repente, fim! Uma de nossas leitoras, Ana Célia, moça esclarecida, escreveu dizendo que tentou fazer um pagamento desses utilizando o mesmo tempo que sempre gastou, durante o intervalo de almoço que seu trabalho lhe garante: “não deu. Quando cheguei no endereço apontado na conta, o atendente me disse que o horário já tinha esgotado. E eu nem sabia que tinha horário”. Estava perto da Capelinha (a igreja) e resolveu ligar ao serviço 0800 da CPFL para pedir socorro. A moça que atendeu perguntou: “onde a senhora está?”. E Ana: “perto da Capelinha, em Franca”. A moça sumiu por alguns segundos. Voltando, “resolveu” o problema de Ana: “obrigada por esperar. Vá até nossa loja mais próxima, no Jardim Cambuí”. Uau! Da Capelinha ao Cambuí? A pé? No intervalo do almoço?
Ana desistiu. Vai pagar com multa, mês que vem. Afirmou-me: “quem sabe, até lá a gente se acostuma. Ou o número de pontos aumenta. O que sei é que tenho que pagar antes do meio-dia”.
A ligeireza da troca das lotéricas conhecidas por lojas novas que a gente não sabe onde estão, sem aviso prévio, é desrespeitosa. Consumidor não pode ser tratado de qualquer jeito. Deveriam ter praticado um período de acomodação, lotéricas recebendo contas e os novos pontos também. Respeito, sabe como é? (Curioso. Sábado passado falei também sobre desrespeito ao consumidor. Será que somos, mesmo, meros números?).
HÁ O OUTRO LADO
Conversei ontem, enquanto produzia este texto, com funcionário experiente de lotérica. O que ouvi, espantou-me: “depois que os ‘bolões’ foram considerados ilegais, o movimento das casas lotéricas caiu muito. O desacordo entre a Caixa Federal e a CPFL explodiu no dia 16 de agosto. De lá para cá, pode anotar ai? mais de 50% do movimento despencou”.
Ainda segundo meu interlocutor, que tem mais de 5 anos de atuação no setor, Franca tem “só” 15 lotéricas - Avenida Brasil, 3; Avenida Presidente Vargas, 1; Rua Júlio Cardoso, 1; Calçadão da Marechal Deodoro, 1; Praça Barão, 1; Praça Nove de Julho, 1; Wal Mart, 1; Carrefour, 1; Savegnago, 2; São Judas, 1; Avenida Champagnat, 1; Leporace, 1. As máquinas registradoras são da Caixa Federal. “Há a expectativa de devolução de equipamentos agora ociosos e dispensa de funcionários. O setor deve entrar em crise a curto prazo”.
Acredito. Franca tem cerca de 120 mil pontos de energia e, por extensão, igual número de contas. Tirados os débitos automáticos, restava sempre muita fila e reclamações nas portas das poucas lotéricas disponíveis.
Isso, mais tarifas que a CPFL resolveu não pagar mais à Caixa, expuseram as vísceras do problema que agora a população lutar para compreender e reenquadrar-se.
Tomara que Ana Célia encontre logo um endereço bem próximo capaz de ser alcançado durante seu horário de almoço. E que a moça do 0800 da empresa de energia não continue exercitando desconhecimento e afirmando que “é logo ali, um tirinho de espingardinha”.
RÁPIDAS