Regra de ouro para um sossego mínimo: manter fechadas as entradas das casas. Nada de aberturas convidativas. Caso contrário, o trabalho que temos ou o ócio que planejamos se interrompem com frequência de irritar até aqueles que, seguindo São Francisco de Assis, sabem que se há de ter paciência especialíssima com as exigências dos muitos pobres e desassistidos.
Um dia destes, no ato mesmo de fechar um portão, ouvi que me chamavam de cidadão, forma polida de tratamento utilizada pelos mais velhos, que fazem questão de mostrar as mãos calosas, já que não podem esconder o vermelhão dos olhos. Nunca vi um mendigo de estiloso óculos de sol.
O meu concidadão que solicitava um instante de minha atenção, haveria de ter mais de sessenta anos, cara limpa, aparência melhor do que a daqueles sempre em busca de dinheirinho faltante para a premente viagem que tanto alegam ou mesmo para um botijão de gás.
Candidato a um cargo eletivo? Não me pareceu, embora esteja hoje muito difícil perscrutar as ambições de quem quer que seja. Por que não candidato às futuras eleições deste ano aquele senhor de feições agradáveis e presença modesta? Surpresa: ao invés de me reter com a lenga-lenga dos bêbados e/ou dos políticos em campanha, levantou desde logo uma relevante questão e das mais embaraçosas:
- O cidadão pode me informar onde encontro miúdos de frango por aqui?
Pensei num açougue próximo, mas o meu interlocutor me explicou que naquele estabelecimento “não lidavam com aves”, coisa que eu deveria saber mas não sabia.
Ocorreu-me um varejão muito próximo de casa:
- Também já estive lá. Não tem.
Quase me deu vontade de responder “E eu com isso?” Mas aí me lembrei de sugerir uma casa de carnes de maior porte, na Rua Estêvão Bourroul, já não tão próximo de minha casa.
- Lá tem. Lá tem, mas não posso comprar deles.
- E por que não?
- É que faz uns tempinhos fiquei devendo dois reais a eles.
(Honestidade em excesso, ou truque novo, pensei comigo.)
- Se o senhor aceitar, proponho eu, posso lhe oferecer os dois reais.
- Não, muito obrigado. Não fica bem.
(E este aonde quer chegar? Quem vê cara...)
- Então lhe cedo três reais, o senhor paga o atrasado e compra os miúdos de frango.
- Não, agradeço de coração. Aí minha dívida com o cidadão é que ficava maior e eu nunca podia pagar.
(E então? Não quer dinheiro emprestado, nem de graça. Quer uma indicação, apenas.)
Num rasgo de filantropia, propus:
- Olhe, eu lhe fio dez reais, o senhor liquida a conta, faz as suas comprinhas e me paga um dia.
(Dia de São Nunca, alertei-me).
- Não, não, agradecido. Dez reais é muito acima do meu alcance. Deus lhe pague a intenção.
E meu concidadão seguiu caminho, incrédulo talvez da riqueza de um desconhecido que lhe podia dar de mão beijada dez reais.
Pensei em formular consulta ao Joelmir Beting ou em escrever detalhadamente à Gazeta Mercantil, em busca de uma explicação plausível para a política econômica posta em prática pelo meu condidadão.
Achei melhor, porém, fechar logo o portão, antes que me aparecesse assim por encanto um sujeito afobadíssimo que necessitaria com urgência urgentíssima de dois reais para comprar um saquinho de biscoitos destinados a agradar a sogra, internada na enfermaria do hospital e desenganada pelos médicos.
Everton de Paula
Acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 42 anos