Nos anos 1960, conheci Ibiraci de passagem, a caminho da Piçarra. A cidade vinha reduzindo sua população depois do final das obras da usina hidrelétrica de Peixotos, famílias inteiras se mudaram para Franca. Mas acho que foi nos anos 70 que surgiram adesivos para carros com a célebre frase “Conheci Ibiraci e gamei”.
Ibiraci entrou na minha vida em 1988. O Luiz Cruz tinha feito uma cartilha de formação política do PT e eu e o Cassiano tivemos a incumbência de passar as ideias ali contidas para um grupo que tinha fundado o partido na cidade, liderado pelo Igor, que acabou eleito vereador, mas tive pouco contato com ele durante o mandato, fui trabalhar em Jaboticabal.
Em dezembro de 1992, logo após as eleições, recebi em meu escritório o Igor, reeleito vereador e a dona Cidinha, uma professora que havia sido eleita prefeita, numa estranha composição entre PT e PSDB. Fizeram-me convite para ajudá-los na equipe da administração, respondi que somente poderia fazer isso através da universidade de Passos, via convênios de cooperação técnica.
Deu certo. Foram anos incríveis, de muito aprendizado, elaborando planos e projetos para uma pequena cidade mineira cheia de problemas. Durante os quatro anos do mandato da dona Cidinha, conseguimos envolver dezenas de estudantes de engenharia na elaboração de propostas para atacar problemas reais. O trabalho mais difícil foi um mutirão de casas populares racionalizadas, construído em apenas um ano de obras. O sacrifício que fizemos, professores e alunos, trabalhando nos finais de semana, sob sol e chuva, foram recompensados ao ver a alegria das pessoas em ter a sua própria casa.
Lembro a solidariedade e boa vontade da equipe da prefeitura e dos mutirantes, mas acima de tudo do envolvimento direto da prefeita que, com sabedoria e paciência, soube superar os desafios políticos e administrativos colocados para a primeira mulher prefeita da cidade. Vários dos meus alunos que passaram por aquela experiência tornaram-se profissionais de sucesso, alguns deles comprometidos com a questão social, algo incomum para engenheiros.
Muita gente da região foi ver como era o nosso processo de trabalho, uma novidade na época. Uma engenheira de prefeitura vizinha quis ver como trabalhávamos. Era agosto, fazia frio pela manhã, mas à tarde o sol esturricava os trabalhadores. Percebi que ela andou pela obra o dia inteiro com um pesado e longo casaco de lã, sob o calor escaldante. Estranhei, mas havia tanto por fazer que não me preocupei. Só na semana seguinte descobrí o porquê daquilo. As mulheres do mutirão a tinham alertado: ela havia menstruado.
A verdade é que, se a vida é cheia de imprevistos, só tenho a agradecer ao Igor, a dona Cidinha e sua equipe pela oportunidade de aprender e fazer coisas que, de alguma forma, ajudaram as pessoas a viver melhor em Ibiraci.
Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor