09 de julho de 2026

As belezas da Espanha em novo ângulo


| Tempo de leitura: 4 min
Incentivo - As belas paisagens são, com certeza, um chamariz a mais para criar coragem e fazer o caminho de Santiago.

O que para muitos é apenas exercício físico, para o médico radicado em Franca Marco Aurélio Piacesi, 60, é uma maneira de conhecer lugares, países, povos e culturas diferentes. Pelo menos é assim que ele tem feito nos últimos anos, quando percorreu a pé mais de 50 mil quilômetros ao redor do mundo em caminhos como o de Santiago de Compostela (na Espanha e na França), o da Fé (até Aparecida do Norte), o de Machu Picchu (no Peru), o do deserto de Atacama, o da Estrada Real até Ouro Preto, e tantos outros.


De férias por dois meses e com tempo e disposição física de dar inveja, Piacesi saiu de Franca no dia 2 de junho acompanhado da mulher Carmen Grijalba rumo à Europa e, após 19 dias passeando com ela e com amigos entre Espanha e França, ele partiu sozinho de Sevilha rumo a Santiago de Compostela.


De lá foram 31 dias, 1.250 quilômetros caminhados e muitas histórias e encontros na lembrança, um deles com o escritor mais popular do Brasil e um dos mais vendidos do mundo, Paulo Coelho. O médico se encontrou - e tomou vinho - com o famoso escritor em Santiago.


Piacesi fez o caminho chamado Via de la Plata, que sai de Sevilha e vai até a cidade de Santiago de Compostela. A região onde o caminho é feito - o sul do país - reserva belas paisagens e construções romanas, árabes e judias. Em Mérida, por exemplo, cidade considerada Patrimônio da Humanidade, há pontes romanas datadas do século XI, além de aquedutos, teatros e templos característicos do Império Romano. Sevilha, onde a caminhada do médico começou, também abriga particularidades, como a terceira maior catedral do mundo. Construída sobre o que era uma mesquita, a igreja comprova a origem árabe da localidade.


A rotina do médico era basicamente a mesma todos os dias, variando apenas as horas e a quantidade de quilômetros do percurso. Ele começava a caminhar às 5 horas e ia dormir por volta das 22 horas. O menor trajeto que ele fez em um dia foi de 12 quilômetros - o mais complexo de todos devido ao grau de dificuldade do trajeto entre Guillena a Castilblanco - e o maior, de 43 quilômetros. Todas as noites ele dormia em um albergue para peregrinos no caminho, onde também tomava banho e lavava as roupas usadas durante o dia. O jantar era sempre feito em um bar ou restaurante próximo, onde era também comprado o almoço do dia seguinte, geralmente um bocadillo - pão com jamón ou chouriço, já que Marco Aurélio nunca parava para almoçar em restaurantes.


A preparação física necessária para encarar férias como as de Piacesi são simples, mas fundamentais, segundo ele. Antes da viagem, o médico praticou exercícios físicos (pilates e esteira) cerca de uma hora por dia, cinco dias na semana. Durante o trajeto, Piacesi sofreu apenas um incidente, em Aljucén, quando uma cobra saltou sobre ele e quase o atacou.


Os gastos da aventura também são menores do que muita gente acredita: US$ 900 com passagem aérea até Madri e depois até Granada e cerca de 35 euros por dia com albergue (em média 8 euros), café da manhã, almoço e jantar (27 euros).
 

Para Piacesi, o prazer de conhecer o mundo em caminhadas é diferente do que se o mesmo trajeto fosse feito de carro ou avião. “Você realmente só conhece um lugar ou um povo se passa a fazer parte da sua rotina e é isso que acontece quando você caminha”, conta. Outro ponto que o médico destaca é o que você aprende com a experiência, como o valor das pequenas coisas, como um banho quente e uma cama, e o desapego material que você aprende quando descobre que pode viver perfeitamente apenas com o que cabe dentro de uma mochila.


Marco Aurélio passou por 35 cidades na Espanha. Ele chegou em Santiago no dia 22 de julho e passou seis dias no local. O aventureiro fez o caminho no chamado Ano Jacobeu, quando o dia 25 de julho, dia de Santiago, coincide com um domingo e é alvo de grandes festas. Neste ano, como acontece sempre na comemoração do Ano Jacobeu, o rei da Espanha, Juan Carlos, e sua mulher, a rainha Sofia, foram a catedral de Santiago de Compostela. Piacesi viu a família real de perto e, mesmo sendo agnóstico e tendo uma espiritualidade independente de religião, para ele a celebração deste dia foi a mais emocionante que ele já assistiu. “Católicos ou não, é impossível não chorar”, contou.

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