09 de julho de 2026

Você é tão bonito, o filme, HOJE!


| Tempo de leitura: 3 min

Dra Denise Lopes Rosado Antônio, psicanalista, membro associado da SBPRP, e psiquiatra, escolheu este filme para comentar, hoje, sábado, no Centro Médico. Classificado como comédia dramática, vale a pena ser visto, por homens e mulheres, este filme de 2006, com direção e roteiro de Isabelle Mergault, também atriz, francesa.


O protagonista, muito bem caracterizado, chama-se Aymé (amado, em francês) que, ao enviuvar, procura uma mulher trabalhadeira que o ajude na sua pequena propriedade agrícola, no interior da França. Ele vai encontrá-la na Romênia, país que vive em grande miséria e com mulheres dispostas a seguir um francês qualquer, em busca de melhores condições de vida.
Elena (a Bela, desde a antiga Tróia), a romena que se dispõe a seguir Aymé, recém chegada, batiza o seu cachorro da fazenda (muito bravo e sempre acorrentado) de “Ciufut” que, em romeno, quer dizer desagradável, rabugento. Na gíria adolescente, Aymé é tosco.


Elena revira a vida de Aymé, embelezando a casa, e se dispondo a viver a vida espartana que ele leva, porque tem um sonho: ajuntar dinheiro para abrir uma escola de dança e dar melhor oportunidade à filha de 6 anos.
 

Aymé, aos poucos, vai sendo “domado” pela delicadeza, ternura e vivacidade de Elena, como o cachorro Ciufut, que acaba se apaixonando por ela, libertando-se da coleira.


É um filme de grande sensibilidade nas imagens escolhidas. Com poucos diálogos, vamos vendo uma transformação na personalidade de Aymé, que diz, poeticamente, em cena dramática, que Elena é um sol que o ilumina de dentro, e o faz ver a vida e as coisas com outra luz. Muito verossímil o outro, o estrangeiro, pode mudar radicalmente nosso modo de ver e sentir o mundo, se deixarmos que sua luz entre n´alma.


Apesar de tosco, bronco, rude, avarento, reclamão, ele tem uma sensibilidade que o faz reconhecer Elena como boa companheira. Uma qualidade de desprendimento, toda sua: Aymé é genuinamente bom.


A Bondade costuma ser associada com o bonzinho (atenção ao diminutivo inho pejorativo) que se mostra sedutor e manipulador de situações para o seu próprio benefício, segundo suas conveniências.


A Bondade, sentimento nobre, costuma ser valente, vigorosa, ativamente benevolente. Ser bom exige um caráter firme e determinado, capaz de reconhecer o que é vital ter empatia com, aceitar no outro, no estrangeiro.


Ser bondoso, no Dicionário dos Sinônimos, poético e de epítetos da Língua Portuguesa, de J.I. Roquete e José da Fonseca, é , essencialmente, ter humanidade, compaixão, benignidade. A generosidade, dar aquilo que é vital ao outro, sem pensar em retorno do investimento, é parte do ser bondoso. Ser bom é ter a condição de não fazer maior dano a quem se percebe estar em condição desfavorável. Difícil sustentar esta posição sem um grau de renúncia e sofrimento.


Aymé, mesmo desagradável, e aparentemente alheio ao convívio social convencional, personagem nada sedutor nem politicamente correto, mostra-se desprendido, capaz de soltar Elena da sua pretensa gaiola.


Elena vê esta boniteza em Aymé. Associa (como é comum às crianças fazerem) Bondade e Beleza. Aymé se torna bonito, porque bom.


A frase-título é repetida sistematicamente a Aymé por todas as candidatas romenas a se casar com ele, quando vai escolher uma mulher trabalhadeira disposta a pegar no pesado, na sua fazenda. Todas dizem, ao final de sua apresentação, a Aymé: “você é tão bonito!”


Elena é a única que não repete a cantilena “você é tão bonito”, quando se candidata a seguir Aymé. No convívio ela o acha (trouve, em francês) bonito. Quando investimos bondade em quem escolhemos amar, tendemos a achá-lo bonito. As bruxas (nos contos de fadas) são más e horrorosas!


Aymé é o amado de Elena. É na liberdade que descobre o seu Amor (e o dele).


Com sua primeira esposa ele implica por vender os coelhos e fazer desconto de um mirrado centavo, já com Elena...


O outro é o sol que pode abrir as portas de novas percepções, colorir nossa existência, favorecer a dinâmica da vida, interior e exterior. Vamos acender muitos sóis, hoje, no Centro Médico, às 15 horas!