09 de julho de 2026

Caravançarais, exemplos de preservação


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A pergunta me pega no meio de uma tarde de domingo : “mãe, o que é mesmo caravançarai?” A mão de quem indaga segura o livro de Saramago, O evangelho segundo Jesus Cristo, releitura obrigatória porque este é um romance cuja magnificência exige retornos. E o advérbio mesmo, enfatizado pela voz, me pede o relato da testemunha ocular.


 Respondo que caravançarais, do jeito como os vi na Turquia, são construções extremamente sólidas, gigantescas, arejadas, com pé direito muito alto. Durante séculos serviram de abrigo aos viajantes. Comerciantes da Rota da Seda, que atravessavam o deserto em caravanas, ali paravam para a recuperação de suas forças e a de seus animais. Os grupos se encontravam, os que iam e os que vinham, e trocavam informações preciosas sobre tudo, de preços a perigos. Caravançarai, na sua etimologia que vem dos persas, significa exatamente ‘lugar onde se reúnem as caravanas.’ Abertos a todo tipo de viajante, eram lugares de acesso gratuito também no Oriente Médio.


Saramago diz em licença poética que José e Maria tinham passado por vários caravançarais, na viagem de Nazaré a Belém, e todos estavam ocupados por viajantes que seguiam para o recenseamento ordenado por César Augusto, já que a região era província romana. Foi então que no último trecho da viagem, estando Maria prestes a dar à luz, por não encontrarem mais nenhum lugar para o pernoite, abrigaram-se numa estrebaria. Do resto da história todos nós que emergimos do cristianismo sabemos bem.


Enfim, pergunta e resposta me levaram de volta à Turquia, país que visitei entre maio e junho deste ano. Como turista interessada primeiramente na milenar Istambul, ex-Constantinopla, ex-Bizâncio, fui pouco a pouco surpreendida por muito mais história, cultura, informação e aprendizado: atravessando o Estreito do Bósforo, quanto mais avançava no continente asiático, mais me ia dando conta de que preservação, esta palavra que ganhou uso constante entre nós brasileiros só nas últimas décadas, para a gente mais orientalizada é conceito solidamente estabelecido. Pode ser que respeito também tenha a ver com latitude.
 

Povos que vivenciaram guerras parecem mais capazes de avaliar perdas e de valorizar tudo o que é conquista do homem, desde o campo a duras penas cultivado até um edifício construído a partir do labor intelectual de quem o projetou e do esforço físico de quem o ergueu pedra a pedra. No caso das construções urbanas, uma parte significativa guarda traços das épocas em que foram concebidas, de forma que mantê-las é uma maneira de lembrar a todo momento aos pósteros a história do espaço que ocupam: este não surgiu do nada, como a mente infantil às vezes avalia, antes das primeiras lições de história, em geral dadas pelos pais. O espaço citadino é mais do que a sua superfície visível; ele é conotador de tempo, estilos, modos de viver, evolução, crescimento demográfico; traduz maneiras de pensar a relação entre as necessidades das pessoas e os jeitos de corresponder a elas. Ou seja, define também a unidade da convivência comunitária e a sua singularidade. Dizem que as cidades se constroem umas sobre as outras e é verdadeiro. Por isso há que se deixar pistas das que existiram íntegras perfilando um momento.
 

Tróia, também em território turco, foi destruída sete vezes por terremotos, fenômenos que não se podem evitar. Ainda assim, dentro do caos das ruínas, há um esforço gigantesco para mostrar as suas camadas. Num paredão de muitos metros, parecendo um cânion, cada estrato desvela tipo, formato e cor de pedras diferentes, o que possibilita aos pesquisadores e aos turistas erguerem hipóteses sobre como foram as cidades da bela Helena.
 

Deste outro lado do mundo, onde não sofremos com abalos sísmicos nem com economias de guerra, e o clima facilita a vida em todos os aspectos, o desperdício generalizado e o menosprezo pelo trabalho de outrém que não o nosso, além de uma evidente ojeriza a tudo o que tem mais de 50 anos, leva-nos a espetáculos como o da descaracterização do prédio da AEC, cuja importância vários arquitetos já enfatizaram.
 

Os caravançarais abrigam hoje hotéis, pousadas, restaurantes, tecelagens e ourivesarias, sem nenhuma desconfiguração de sua arquitetura. Para os turcos, este espaço de convivência e troca de informações não pode ser esquecido, muito menos deletado.E todos os caravançarais trazem a sua história emoldurada logo na entrada. Almoçamos num do século XIII que fica nas cercanias de Konia, chamado Yésil Turbe, se não me falha a memória.
 

Para mostrar imagens, que costumam falar mais que palavras, busquei as fotos daquele momento.E olhando-as, pensei então ser possível que nossa juventude de 500 anos não nos permita diferenciar com lucidez o que é velho do que é antigo, confundindo-os como o fazem aqueles que não diferenciam a noção de valor da de preço.
 

Ou então somos mesmo vândalos, subespécie dos predadores.

 

Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço