09 de julho de 2026

Patrimônio histórico em frangalhos


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Desde as primeiras lutas pela preservação do patrimônio cultural arquitetônico de Franca, na esteira da demolição do antigo Hotel Francano pelo banco Itaú, pouco foi possível avançar numa cidade que, destruindo sistematicamente o seu passado, não deixará um legado para as futuras gerações sobre como viveram nossos antepassados.


A cidade de taipa do século XIX desapareceu completamente, nada restou. A cidade de tijolos do final do século XIX até a metade do século XX, também desapareceu rapidamente, restam alguns exemplares isolados, mas que logo também irão para o beleléu, já que o poder público eximiu-se de qualquer responsabilidade e a sociedade é incapaz de perceber o tamanho do desastre que vem ocorrendo e do seu valor para o futuro.
 

Franca perdeu a mítica Estalagem ainda nos anos 1960. Depois, nos 70, foram-se os casarões construídos com o dinheiro do café, na região central. Nos anos 80 iniciou-se um processo irreversível de modificações na antiga matriz que a vem descaracterizando totalmente e foi a vez do emblemático Hotel Francano e da primeira fábrica de calçados da cidade, a Jaguar, irem ao chão.


A criação do CONDEPHAT municipal em 1981 foi uma tentativa de iniciar um processo de mudança neste quadro de absoluto descaso com a memória e a história edificada da cidade. Infelizmente, esse modelo revelou-se um fracasso, submetido aos caprichos do prefeito de plantão e tolhido por uma política míope, apoiada por uma elite endinheirada e inculta que vai visitar “velharias” na Europa, mas que se recusa a preservar seu próprio passado. A preservação das moradias operárias e outras expressões arquitetônicas mal entraram na pauta do governo local, a única moradia ferroviária tombada em Miramontes permanece no mais total abandono.
 

O fato é que as políticas de preservação do patrimônio edificado e da cidade nunca foram efetivamente apoiadas nem pelas universidades locais, encasteladas num mundo à parte, preocupadas, quando muito, com a publicação de papéis lidos apenas por eles mesmos.
 

Agora chegou a vez da cidade de concreto da segunda metade do século XX também ser destruída. Não há nada que tenha tanta importância histórica, arquitetônica ou cultural que o prédio da AEC para esta cidade e desafio quem tenha argumentos para negar isso. Depois do “passa-moleque” do prefeito Sidnei Rocha e da desacreditada Câmara Municipal no CONDEPHAT para não tombá-lo, vê-lo descaracterizado a marretadas e seu entulho transportado em carroças seria cômico não fosse trágico para a cultura local.
 

O recente acordo realizado por um proprietário após a demolição de uma residência em processo de tombamento (que já era um equívoco) redundou numa pequena multa e a construção de uma fachada falsa do prédio como “compensação”, solução que traduz exemplarmente, em seu ridículo, a sensação de impotência daqueles que, um dia, sonharam em preservar a memória do ambiente construído e o legado das gerações passadas.
 

Talvez, num futuro distante, Franca perceba o quanto perdeu com este descaso. Mas aí será tarde demais.

 

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor