O menino Candinho nasceu pertinho de Franca, numa fazenda de café chamada Santa Rosa, pertencente ao município de Brodowski. Aliás, não era bem uma cidade ainda, era um povoado. Ali o menino viveu uma infância muito feliz. É o que todo mundo que o conheceu diz.
Ele amava o seu grande quintal, que se estendia para os fundos, os lados, a frente. Nele havia flores de muitas cores e formatos, como as cravinas, as açucenas, os manacás. Também frutos silvestres como gabirobas, jabuticabas, araçás.
E os bichos nos campos? Eram tantos! Passarinhos, seriemas, saracuras - os de asa. Caracóis, tatus, tartarugas - os de casca. De longe os conhecia. Mesmo tendo estilingue no bolso, não os perseguia.
Durante o dia, as brincadeiras - cambalhotas, pique de pegar, pular carniça. Quando o parque se instalou na praça, gangorra, balanço, argola - tudo de graça. Em todo agosto, o vento mais bravo levava a meninada a manobrar no ar suas pipas.
E os bichos da cidade? Um carneiro bem branquinho, que nunca se sujava e leite só na mamadeira tomava. Mais as andorinhas que ao redor da torre da igreja círculos faziam e deixavam hipnotizado o olhar da criança. Tudo ficou na lembrança.
Um dia apareceu um circo. Quantas surpresas! Tinha um palhaço, como todos os circos. Também malabaristas e equilibristas. Além de um homem magrinho que se espichava no chão para se enrolar sobre si mesmo: era o contorcionista.
Mas nem tudo era luz e certeza neste mundo do menino Candinho. Havia também a noite e o medo. À tardinha, contavam histórias de assombração, lobisomem, alma de outro mundo. À noite no quarto escuro, ouvindo lá fora o vento que zunia, o menino em sua cama estremecia.
Só que o dia nascia de novo, tão claro e colorido que o susto noturno se fazia esquecido. No caminho para a escola, bom era olhar as meninas. As loirinhas, as moreninhas, as irmãs dos amigos, a afilhada da professora, a sobrinha da madrinha. Todas bonitas. As de chita e as de fita.
Crescendo, era na retreta que moços e moças se encontravam enquanto a banda tocava. O maestro de jeito sério alguma história inspirava. E a vida seguia em frente. Entre tintas e pincéis, alguns sonhos esboçados.
Então o menino Candinho a pintar já tinha começado. Sem professor, com modelos, só na natureza inspirado. Do primeiro desenho nunca se esqueceu: uma maçã, dentro da maçã uma mesa, em cima da mesa outra maçã. Muitas vezes pintou este mesmo quadro.
Depois viriam meninos em gangorras, muitos anjinhos, manhãs de sol, meninas enfeitadas, campinho de futebol, a fazenda de café, a igreja, os santos, o circo, as pipas livres no céu, a floresta com seus bichos, a banda de música, as nuvens ao léu... Era todo o universo de Candinho brotando nas telas de Portinari.