“Não há cura para o nascimento e a morte, a não ser usufruir do intervalo”
George Santayana, filósofo espanhol
Nesta quarta-feira, dia 18, a morte de meu pai completa cinco anos. Foi na noite de uma quinta-feira de meados de agosto de 2005 que seu corpo, já castigado por uma série de procedimentos cirúrgicos, paradas cardíacas e outras tantas complicações, perdeu a batalha pela vida. Quem o conheceu sabe que ele não se entregaria nunca. Assim foi. Morreu, mas sob intensos protestos pessoais. Não queria partir de jeito nenhum. Foi a contragosto.
Foi no começo de 2005, logo depois do ano novo, que papai nos avisou que havia resolvido se submeter à cirurgia para tratamento da hidrocefalia de pressão (aumento da pressão interna do crânio provocada pelo acúmulo de liquor) que o acometia. A progressiva perda da coordenação motora e a dificuldade crescente de controlar o passo da caminhada tinham sido decisivos para que seu cérebro ainda muito ativo enfim aceitasse a idéia de uma intervenção cirúrgica.
A cirurgia foi marcada para fevereiro, depois do aniversário do filho caçula e do meu, na sequência. Nestes pouco mais de dois meses que separaram o anúncio da cirurgia da intervenção propriamente dita, meu pai teve tempo para um movimento decisivo. Foi dele o apoio fundamental que recebi para, naquele início de 2005, comprar a rádio Difusora. Papai participou comigo de uma longa e tensa reunião com os antigos proprietários, que se arrastou por mais de 9 horas, e foi decisivo para que fechássemos o negócio.
Fevereiro irrompeu, meu aniversário passou e era hora da tal cirurgia. Levei meus pais até Ribeirão na manhã do dia 10 de fevereiro, quinta-feira. Internação feita, preparativos realizados, procedimentos adequados. Papai parecia tranquilo, calmo. A cirurgia, propriamente dita, foi um sucesso. A recuperação, muito rápida. Na manhã de sábado recebeu alta. Parecia vinte anos mais novo. Do hospital São Lucas quis seguir direto para o jornal, na Ouvidor Freire. Chegamos na hora do almoço. Tinha fome. Pediu um churrasco completo do restaurante Barão, lugar que adorava frequentar. Comeu, assinou cheques, despachou papéis. Foi para sua casa dormir. O beijo de despedida na tarde daquele sábado, 12 de fevereiro, foi a última vez vi meu pai como o havia conhecido desde sempre.
Horas depois ele manifestaria sintomas de confusão mental. Alguma coisa na cirurgia não deu certo. Os problemas se agravaram e ele nunca mais recuperaria de todo a razão. Foram feitas outras cirurgias em Ribeirão Preto, depois em São Paulo, muitos exames, fisioterapia e o que mais se puder imaginar. Fisicamente, até parecia bem, mas era como se já não estivesse por aqui. Seu olhar ficava grande parte do dia perdido. As palavras, desapareceram. No lugar do noticiário político que sempre foi sua paixão, passou a gostar de filmes e novelas. Jornal não queria ler. Nenhum. Só a Difusora, sua última conquista, adorava ouvir, por horas e horas a fio.
Vez ou outra, sua lucidez voltava, como num passe de mágica. Era sempre assombroso. Uma destas ocasiões aconteceu logo depois de um trauma. Estávamos no edifício Barramares e descíamos no elevador para que ele caminhasse. Houve uma pane e ficamos presos no cubículo por mais de 40 minutos. Eu, minha mãe, uma enfermeira e papai. Tive que me sentar para ele pudesse descansar o corpo sobre minhas costas. Foi horrível. Para piorar, quando voltou a funcionar, o elevador parou entre o térreo e o subsolo, o que fez com que bombeiros tivessem que ser chamados para içá-lo. Ao sair daquela situação dramática, fomos de ambulância para o hospital. Enquanto os paramédicos o preparavam para o transporte, papai se dirigiu a minha mãe, com os olhos marejados, e disse, sem prévio aviso: “Sônia, o que me deixa triste, meu amor, é a saudade que eu vou sentir de você”. Nunca vi declaração de amor mais pungente. Choramos muito. Os três.
A economia de palavras que meu pai reservava a qualquer interlocutor não se aplicava à minha filha, Júlia. Com ela, misteriosamente, ele sempre conversava. No final de junho, como de hábito, a redação preparava a edição especial de aniversário do Comércio. O repórter Edson Arantes queria entrevistar o ‘seo’ Corrêa. Mas meu pai não parecia nem um pouco interessado. Primeira pergunta, nenhuma resposta. De novo. Nada. Outra vez. Silêncio. Edson tentou por mais de uma hora arrancar uma palavra que fosse. Em vão. Foi quando minha filha passou por perto. Desesperado, Edson pediu ajuda. Júlia assumiu então, aos seis anos, as funções de repórter pela primeira vez. Quando as mesmas perguntas elaboradas por Edson Arantes eram pronunciadas por Júlia, papai respondia, com surpreendente articulação. Foi assim, na ‘estréia’ improvisada da neta, que meu pai concedeu sua última entrevista. É um registro precioso, guardado com carinho.
Os últimos cinco anos foram muito intensos. Passaram, sem qualquer exagero, num piscar de olhos. Mudamos a sede do jornal para um prédio muito maior, ampliamos nossas operações, empregamos cinco vezes mais profissionais, lançamos revistas. Ganhamos prêmios importantes, como o Esso de Jornalismo, fizemos coberturas internacionais, a rádio conquistou a liderança de audiência. Continuamos a cumprir nossa missão sem medo e denunciamos irregularidades em governos e instituições, criamos um Conselho de Leitores para nos ajudar a manter a qualidade editorial. Hoje, lançamos o GCN.net.br, portal na internet que concentra toda a produção jornalística dos nossos diversos veículos. É um passo importante que nos posiciona, mais uma vez, na vanguarda do jornalismo brasileiro.
Durante esta semana que antecede o lançamento do portal - e o aniversário da morte de meu pai - fiquei imaginando o que ele acharia de tudo o que estamos fazendo. Que opinião teria sobre nossa sede e a súbita mudança de cores que decidimos fazer, para deixar claro que o passo que damos é para valer. Pensei também em como ele ficaria feliz com os projetos de cobertura das eleições, especialmente a marcha das apurações, que temos feito com grande êxito, e a série de sabatinas com os candidatos a deputado federal e estadual. Foi um bom exercício, que me reconfortou a alma.
Penso no meu pai sempre com muita saudade. Sem nenhum remorso, porque sempre disse a ele o que pensava e, especialmente, o quanto gostava dele. Mas sinto sua falta e gostaria muito que ele estivesse aqui para participar conosco de tudo que temos feito, para ajudar a clarear os caminhos com sua intuição poderosa. Tenho certeza de que hoje ele estaria muito feliz e acompanharia, desde as primeiras horas da manhã, as ações de lançamento do novo portal. Aposto que pediria a Walter Ferraro, motorista - e amigo - de muitos anos, que o apanhasse cedinho em casa para acompanhar de perto todo o movimento. É certo também que ‘sequestraria’ seu pequeno neto, João, a cada dia mais parecido com o avô, para acompanhá-lo na jornada. Estaria um pouco irritado com os custos, mas muito animado com a aventura.
Meu pai está morto e não pode mais nos acompanhar. Mas sua determinação, honestidade e lealdade são exemplos permanentes e indeléveis, sempre presentes e muito fortes para todos que tiveram o privilégio de trabalhar - ou conviver - com ele. Em momentos decisivos como o que começamos a trilhar hoje, seus princípios e valores nos ajudam a manter o foco e a nunca esmorecer. Porque a coragem, que nele sobrava, não falta a nenhum de nós. Vamos à luta!
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br