09 de julho de 2026

Falta de cidadania é fogo!


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A manchete do Jornal de Jundiaí de sexta-feira é dramática para quem se preocupa com o meio ambiente e o futuro do planeta. ‘Para escapar do fogo, bichos invadem o asfalto’, escancarou o jornal em sua primeira página. Um lobo-guará foi parar no pátio de uma empresa metalúrgica e um ratão-do-banhado, que vive à beira de rios, foi flagrado em pleno calçadão do shopping. São exemplares silvestres em fuga.

Não é a primeira vez. No dia 5 de junho, como se quisesse lembrar o Dia Mundial do Meio Ambiente, uma onça-parda adulta foi capturada no quintal de uma casa. Em Presidente Prudente, O Imparcial, registrou esta semana a fuga de capivaras em incêndio na região do Córrego Veado. O Jornal de Piracicaba noticiou destruição de 92 hectares no município, dos quais 15 de vegetação nativa.


Em Araraquara, o Tribuna Impressa destacou que fogo de quase quatro dias consumiu 100 hectares de reserva florestal, num dos piores desastres ambientais do município, onde as queimadas aumentaram três vezes em julho e agosto em relação ao mesmo período do ano passado. E quatro hectares em área que abriga macacos, pacas, tatus, capivaras e pássaros foram queimados em Araçatuba, informou a Folha da Região.

 

Sufoco
Baixa umidade do ar e a fumaça sufocaram boa parte do Interior Paulista na semana. O Comércio da Franca definiu o clima na cidade: “Quase um deserto”. Enquanto isso, em Porto Alegre caía uma inusitada “chuva laranja”, com pingos cor de barro atribuídos por meteorologista ouvida pelo jornal Zero Hora à fuligem gerada por queimadas na região central. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o País possuía na sexta-feira 320 municípios em situação crítica com risco de queimadas, 61 deles no Estado de São Paulo. O Ministério Público Federal ingressou com ação civil pública na Justiça Federal para impedir “queimadas controladas’ em plantações de cana-de-açúcar.


Aquecimento local
Estudo da Unesp aponta que as temperaturas têm subido em ritmo lento, porém constante, em cidades médias do estado. Materiais usados nas construções e a falta de arborização estão entre as principais causas. Independentemente de fatores globais, essas cidades sentem os efeitos do “aquecimento local” gerado pela própria cidade, diz o geógrafo João Lima, para quem as áreas urbanas estão armazenando muito calor, que é liberado à noite. Ele recomenda aumentar o plantio de árvores. “Das práticas ambientais, a arborização é a melhor. A boa distribuição de árvores e parques públicos são as estratégias mais viáveis para amenizar o efeito do aquecimento local”.
 

Índices
Em S. José do Rio Preto, seria preciso triplicar o número atual de árvores para atingir a meta do programa Município Verde Azul, da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, que prevê 100 metros quadrados de arborização por habitante, segundo informa o Diário da Região. Um índice atribuído à ONU preconiza pelo menos 12 metros quadrados de área verde por habitante para que haja equilíbrio entre a quantidade de oxigênio e gás carbônico. Há cidades que nem chegam a isso. E se forem incluídas todas as atividades com combustão (indústria, tráfego e atividades domésticas), essa referência se elevaria para 75 metros quadrados por habitante, segundo publicação de Helmut Troppmair e Márcia Helena Galina, da Unesp.
 

Alerta
A população, ao menos, é vigilante. Em Americana, cerca de 100 ipês, jatobás, mangueiras e outros tipos, plantados com a participação de moradores, foram cortadas para dar lugar a obras de “revitalização” na entrada da cidade, informa O Liberal. A população se revoltou. A prefeitura promete plantar mais árvores em outros locais. Um mês antes, 120 árvores cultivadas por moradores em uma área ambiental também foram solapadas. Houve revolta e protesto.


Maus exemplos
Merece reflexão o desrespeito à arborização já existente. Na região de Sorocaba, os rios perderam 200 quilômetros quadrados de mata ciliar nos últimos 15 anos, informa o Cruzeiro do Sul. Árvores sofrem poda radical para dar lugar a propaganda eleitoral na cidade desde 1994, segundo o Jornal de Limeira. Em Bauru, a prefeitura não consegue controlar os atentados contra a natureza. Até envenenamento de árvores ocorreu. Há casos em que o cidadão prefere pagar multa de R$ 500 por árvore cortada a ter que preservar o verde e a qualidade do ar e do clima. O Jornal da Cidade acusou em manchete: “Árvores estão sendo dizimadas da área urbana por falta de cidadania”.

 

Wilson Marini
wmarini@apj.inf.br