Este romance de Philip Roth tem por título original Everyman. Esta palavra em inglês se refere a “uma peça do século XV, um clássico da dramartugia inglesa, cujo tema é a convocação dos vivos para a morte”.
Homem Comum (2006) é o primeiro de um quarteto de romances curtos, sendo o segundo Indignação (2009), o terceiro Humilhação (2009). O quarto, Nemesis, está no prelo, segundo o escritor, e deverá sair até o fim de 2010.
Roth, em uma entrevista realizada em julho deste ano, disse que o quarteto ainda não foi reunido, a não ser em sua cabeça, e que pensou em Nemesis como a conclusão de um ciclo desses romances.
Em Homem Comum, a nêmese é a doença e a morte, em Indignação, a indignação e a guerra, em Humilhação, a circunstância fora de controle que aflige o protagonista, e no romance final é a epidemia de pólio em 1944.
As obras de Roth são permeadas por uma tênue linha entre a autobiografia e a ficção, o que torna os personagens tão reais, numa narrativa direta e intimista. Homem Comum, numa perspectiva universal, enfoca a luta de um homem contra a morte, atormentado por seus males físicos, dilacerado ao ver a deterioração de seus contemporâneos e principalmente a sua. O personagem central não é nomeado, mas são nomeados seus sentimentos, suas emoções, num período que se inicia na infância e segue até os 71 anos.
Numa espécie de túnel do tempo, de forma atemporal, o ficcionista viaja em vários núcleos, faz perguntas em espirais sobre sua vida e o rumo que esta seguiu. As rememorações são freqüentes, como o medo da morte, que o persegue desde criança. É filho de um relojoeiro e comerciante de diamantes, de origem judaica, e de uma mãe amorosa. Irmão de Howie (este é mais velho que ele), sente admiração e respeito pelo mesmo, pai de Lonny e Randy, de seu primeiro casamento com Cecília. Mas ao ver que estava envelhecendo, ao passo que Howie permanecia com uma ótima saúde física e psíquica, e com um casamento equilibrado, começou a evitar o irmão que tanto admirava... e que agora invejava.
Em Animal Agonizante, Homem Comum e Fantasma sai de cena, o corpo humano é o território onde o processo do envelhecimento se faz presente. Há uma repetição do tema de forma nítida, como há um desnudamento de questões dolorosas principalmente quando o palco central é a desesperança. É como se o envelhecer fosse o fim de emoções e sensações prazerosas. Uma parte do personagem queria ser um homem comum com um casamento estável e família constituída; a outra parte é movida pelo desejo de aventuras sexuais e de pura adrenalina. Com o passar do tempo, ele se sente frágil, vulnerável, infeliz, confuso.
Aposenta-se aos 65 anos, muda-se de Nova York para uma cidade a beira-mar, e vai dar aulas de pintura. Choca-se ao ver que seus alunos são de idades similares a sua, não havia corpos jovens que pudessem pseudamente encobrir suas rugas, principalmente as psíquicas. A esta altura, já havia passado por várias cirurgias cardíacas, “a velhice para ele não era uma batalha e sim um massacre”. Com este olhar encouraçado vai se tornando cada vez mais solitário e infeliz. Remorso e culpa habitam seu coração, percebe que a roda do tempo começa a não funcionar, tal qual o desfibrilador que carrega em seu abdômen, colocado cirurgicamente.
Percebe a realidade em sua sétima cirurgia cardíaca; vê que não havia mais tempo para mudar o que tinha feito e o que deixara de fazer.
O tempo para, seu coração também, esvai-se o cheiro da liberdade, do mar em que nadava quando jovem com seu corpo atlético e bronzeado. A morte se faz presente, e de certa forma o liberta das malhas que ele tanto odiava: o envelhecer...
Em Fantasma sai de cena, conjecturava-se uma possível despedida de Roth, e não somente de seu alter ego Nathan Zuckerman. Philip Roth continua firme na arte da escrita com sua forma nua e crua de expressar, impactante muitas vezes, causando desconfortos, dependendo da forma como cada um encara o processo de envelhecimento e suas nuances.