-Oi, moça! Você não me arruma uma caixa de fósforos? Não vou mentir não, eu vou usar um negocinho ali.
— Que é isso, rapaz; tão jovem e desperdiçando a vida assim!
—Tem razão,dona, acabei de sair de uma casa de recuperação, mas...
E foi citando uma passagem bíblica que, pela distância, não ouvi direito.
— Sabe aonde aprendi isso? Com os evangélicos.
— Que bom! Espero que aplique na vida e, quem sabe, para sair dessa...
Disfarçadamente observei o jovem: roupa surrada, calça rasgada, sapatos imundos, mas o sorriso bonito com dentes perfeitos e olhos de um brilho embaçado. Tive medo de me aproximar mais e fui saindo. Já estava distante e ele prosseguia seu discurso religioso.
Pelo caminho pensei nos meus filhos e também na mãe daquele menino. Senti um aperto no coração. Flechas atiradas ao imponderável são os filhos; entretanto, sempre queremos vê-los bem e vitoriosos. Trajetória torta empreendeu este moço. Em que momento a mãe o perdeu?
Veio-me à lembrança a campanha do Criança Esperança: “... Com sua ajuda eu tive oportunidade...”
Que sortudos são aqueles outros que vicejam apesar das adversidades! Que criança sem esperança é esta!
Marina Garcia Garcia
Pedagoga e professora de Português