07 de julho de 2026

Vinte e cinco


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Não muito a gosto, chegou agosto. Assim, como sempre veio, vestido de poeira, soprando um ar desprovido de umidade que agride nossas vias respiratórias, principalmente das crianças e dos idosos. Não findou ainda o inverno nem nasceu a primavera. Resta um vento seco e frio pela manhã e à noite, que chicoteia nossa pele tornando-a desidratada e, como se não bastasse esta intempérie, o tempo vai se encarregando de nos tornar mais velhos também na aparência. Primeiro são as linhas de expressão, depois as rugas... é a uv-passa a caminho.


 Embora não aparente (é o que dizem), em janeiro vindouro completo sessenta. Não posso me queixar : desconheço qualquer cirurgia, gozo de ótima saúde, tenho disposição para tudo e sou um homem apaixonado pela vida. Mas sessenta são sessenta. Meu Deus ! Parece que foi ontem, eu jogando bolinhas de gude na rua...


 Se ainda estou bom de matemática e, salvo qualquer imprevisto indesejável, tenho possibilidades, com uma dose de otimismo, de viver mais 25 anos, chegarei então aos oitenta e cinco. Partindo desse raciocínio posso dizer portanto, quando perguntarem minha idade no ano que vem :


 — Você tem sessenta ? — Não, tenho vinte e cinco ! Responderei. Claro, vinte e cinco para serem vividos. Depois terei 24, 23, 22 ... E desta maneira irei rejuvenescendo até retornar ao útero materno.


 Mas como tudo na vida passa, este mês vai passar também. Como diria Chico Buarque ‘vai passar pela avenida um samba popular, cada paralepípedo da velha cidade esta noite vai se arrepiar...’ Logo vem setembro e enfim, outubro com o primeiro turno, as primeiras chuvas e os primeiros odores de chão molhado. É o verde de volta, a vida ressurgindo das cinzas literalmente, a exuberância das tonalidades como se fossem paisagens de Monet. Ah ! As tardes de outubro, o sol esvanescendo entre nuvens carregadas no horizonte, como se fosse uma paleta de cores, extravazando a beleza e extasiando a alma !


 De outubro ao Natal é questão de espírito. Então é janeiro, e o senhor aqui terá vinte e cinco anos. Jovem não ?

 

Hélio França
Engenheiro e membro da Academia Francana de Letras