08 de julho de 2026

Do alpendre...


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Sempre gostei de minha casa situada na Rua General Teles, 757 (número antigo). Gostava de sua torre, de seus arcos, de seu quintal amplo e arborizado. Em frente, havia um jardim com grama, hortências, margaridas, antúrios, onze-horas e uma dracena. O coqueiro morreu. Meus pais plantaram, do lado direito, um arbusto chamado chapéu-de-lampião e, do esquerdo, um ipê branco que, ao florescer em agosto, deslumbrava a todos que o contemplavam. Havia também um alpendre onde nós passávamos horas conversando. Meu pai acendia um cigarro de palha, recostava-se na cadeira e falava-me sobre a sua vida, a sua luta, os seus sucessos e insucessos. Ali, naquele alpendre, ele me transmitia as suas experiências, os seus valores e sua maneira de ver a vida. E eu ouvia. Ouvia o pai, o amigo, o irmão, o mestre, o profeta. Dali, juntos ou a sós, víamos a vida passar.


De manhã, além das carrocinhas de leiteiro, padeiro, verdureiro, passava Conceição, o tintureiro. Conceição era um homem forte, de traços marcantes, de olhos grandes, luminosos e alegres. Trazia sempre um boné na cabeça e cabides na mão. Falador, barulhento, ele movimentava a rua com a sua passagem.


Lá pelas 11h30 , uma caminhonete trazia em sua carroceria os Professores Antônio Peixoto, com seu terno cinza-chumbo, e Hélio Palermo, trajando sempre um terno marrom. Traziam, indefectivelmente, em suas mãos as respectivas pastas. A caminhonete parava pouco acima de minha casa e o Prof. Peixoto pulava. O Prof. Hélio Palermo desceria na esquina da General com a antiga Rua Augusto Marques, local de sua residência.


Depois das 5 horas, vinha o Marquesin, o eletricista... Parava no portão de minha casa, batia um papinho com o meu pai e subia a ladeira em direção à sua moradia.


Antes do escurecer, duas figuras singulares escalavam a General Teles. Eram árabes. Na frente ia um “turcão” forte, bem vestido, empertigado, de cabelos pretos e voz tonitruante. Logo atrás seguia-o um velho “turquinho” de cabelos brancos e todo encurvado. Pareciam brigar em sua língua áspera. Nada disso, simplesmente conversavam. Tratava-se de dois amigos inseparáveis (os Senhores Abdala e Damiam, se não me falha a memória) que iam até a Praça Barão para tomar a sua costumeira água Santa Helena acompanhada de um cafezinho.


De noite, só havia o guarda da fábrica de Calçados Francano, de prosa muito agradável, e um rapaz meio idoso que contava as piadas mais desenxabidas que eu já havia ouvido.


Assim, prezado leitor, a vida passou pelo alpendre de minha casa. A rua não tem mais pedestres. O alpendre está vazio. Meu pai já não pode mais fazer-me companhia. Eu já não posso mais ver as pessoas e as coisas. O jardim secou. Não há mais a dracena e o ipê. Só a casa continua com seus fantasmas e suas recordações. Inexoravelmente, a vida passou. Às vezes, entro na velha casa da torre e dos arcos e deixo-me levar pelos tempos idos e vividos. Que saudade!

 

Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras