O pagamento de gratificação para profissionais já remunerados pelo serviço prestado tornou-se rotina. Na origem, gorjeta é um negócio meio sujo. Trata-se do diminutivo de gorja, que em francês quer dizer pagamento feito a alguém para não mentir.
Propina veio do latim. É a gratificação paga a um empregado por serviço a ser prestado no exercício de suas funções. Com o tempo, ficou sendo o dinheiro ou o presente dado a funcionário para agilizar serviços já pagos ao Estado, em forma de taxas ou impostos.
Nos dois casos, trata-se de um pagamento duplo. A propina tem mais uso na área de prestação de serviços públicos, sejam primários ou terceirizados, em que se paga antes da execução. Já a gorjeta fica para depois do serviço.
O emplacamento de veículos era feito por funcionários do Estado. Hoje, esta tarefa foi terceirizada. Por vezes, empresa particular contratada para prestar serviço público acaba adquirindo hábitos de lucro fácil.
A antiga responsável por emplacar veículos em várias cidades do Estado praticava extorsão. Quem comprasse um veículo novo, após pagar impostos e taxas de serviço, incluindo a placa, era informado no setor de emplacamento de que o produto ainda não estava na cidade.
Difícil situação para o novo proprietário. Caso circulasse no veículo, sem as placas, poderia ser multado. Para resolver o impasse, bastava pagar R$ 100,00 e a empresa confeccionava a identificação na hora. Se a nota fiscal fosse exigida, vinha com a especificação de que se tratava de placas especiais. Por essas e outras, a concessão foi cassada pelo Detran.
Nova empresa saiu vencedora da licitação para emplacar veículos. Novo local para atender o público foi locado na cidade. Pelo menos de início, os funcionários parecem ser mais prestativos que os anteriores. Eis que surgem as velhas manhas por parte do próprio cliente.
Tarde dessas, vários veículos aguardavam emplacamento. O atendimento era feito pela ordem de chegada. De repente, adentra o pátio um possante e novo carro. Dele sai um médico e se dirige ao guichê. Diz ao atendente que não pode esperar, porque fará tem compromisso importante para dali a pouco. Entrega os documentos junto com uma nota de R$ 20,00.
O que pesou mais: a propina ou a profissão de médico? O funcionário responsável pelo emplacamento ainda reagiu, alegando ao recepcionista que os outros clientes poderiam chiar. Mesmo assim, cumpriu a ordem de dar primazia ao facultativo. Após colocar o lacre, devolve os documentos e recebe da perita mão uma nota de R$ 20,00 de gorjeta.
O funcionário ainda pedia aos motoristas para tirar os veículos do pátio, para o médico sair, quando a responsável pela empresa chegou. Pelo burburinho dos clientes, fica sabendo do ocorrido. Faz uma reunião em sua sala. Retorna ao setor e ordena o emplacamento dos carros que estavam na frente.
Por não ter como deixar o local, o médico teve de esperar a colocação de placas nos outros veículos.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br