16 de março de 2026

‘Coragem e Ação’


| Tempo de leitura: 5 min
Graciela jogou fora uma chance única de sepultar as insinuações de que seja uma política fraca e manipulada

“Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com
frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar”

William Shakespeare,
escritor inglês

 

Os primeiros dias de agosto marcaram o início do projeto de cobertura eleitoral do GCN Comunicação, que publica o Comércio. Além do caderno diário que reúne o noticiário relativo à disputa em Franca, na região, no Estado e no Brasil, teve início a série de sabatinas com os candidatos a deputado estadual e federal e transmitidas por rádio, internet, TV e, claro, registradas no próprio jornal. Duas sabatinas deveriam ter sido realizadas nesta primeira semana, mas apenas uma aconteceu. Infelizmente, e por razões que escapam totalmente à nossa compreensão.


A abertura foi em grande nível. O sindicalista e radialista Paulo Afonso Ribeiro, vereador pelo PT e candidato a uma vaga de deputado federal, mostrou na manhã de terça-feira que tem idéias firmes e propostas concretas para um eventual mandato na Câmara Federal. Foi sabatinado durante uma hora e não deixou pergunta sem resposta. Foi direto, fez questão de expressar seu pensamento com clareza e não titubeou sobre assunto nenhum. Além disso, mostrou-se muito bem preparado e informado. Sobre todos os assuntos, de invasão de terras às pesquisas com células-tronco embrionária, passando por reforma tributária, falou com propriedade. Agora, cabe ao eleitor avaliar se concorda com suas idéias e propostas.


O mesmo não pode ser dito com relação à delegada e vereadora Graciela Ambrósio, cuja sabatina estava prevista para quinta-feira, por uma simples e melancólica razão: ela não veio. A delegada que ganhou notoriedade por sua postura independente na Câmara de Vereadores, onde em distintas oportunidades travou embates duros com seus colegas, esmoreceu diante da perspectiva de ser questionada, durante uma hora, por um trio de jornalistas. Broxante.


Nenhum dos argumentos apresentados pela candidata para tentar justificar sua ausência - o que aconteceu apenas quatro minutos antes do início previsto para a sabatina - pode sequer ser levado a sério. Dizer que tem “problemas de relacionamento” com seu partido, como ela fez na carta enviada ao GCN, e lamentar ter sido oficiada pelo PP apenas três dias antes da sabatina, são desculpas que chegam a ser risíveis. Primeiro porque não é de hoje que Graciela tem problemas com líderes do PP e eles nunca impediram sua atuação parlamentar. Segundo porque há mais de um mês veiculamos notícias sobre as sabatinas. A própria candidata foi informada por nossos profissionais, diretamente, sobre a série de entrevistas. Graciela sabia há muito mais tempo sobre as sabatinas do que tenta fazer o público crer. Não veio porque não quis. Ou porque teve receio de seu desempenho. Nunca, por falta de informação.


A ausência de Graciela foi decepcionante. Há 25 meses, neste mesmo espaço, elogiei a postura da então vereadora por sua coragem e fibra. Disse que ela era uma espécie de “viagra político”, um antídoto contra “a falta de vigor e entusiasmo” que havia tomado conta da legislatura anterior. Muitos, na época, diziam que a “combativa” Graciela era pouco mais que um fantoche, um mero instrumento manipulado por assessores próximos que premeditavam todos os seus passos e guiavam cada um de seus movimentos. Nunca acreditei.


Na última quinta-feira, Graciela Ambrosio jogou fora uma oportunidade única de sepultar de uma vez por todas as insinuações de que é uma política fraca, uma mulher sem idéias e substância que dependeria de ajuda para formular projetos e decidir como votar. Durante uma hora poderia ter expressado sua opinião, ao vivo, sobre temas fundamentais. Teria tido a chance de explicar as razões pelas quais deseja ser deputada federal, bem como teria espaço para detalhar sua atuação na Câmara de Vereadores.


A candidata que se queixa da falta de apoio e de recursos financeiros poderia ainda ter levado sua mensagem, sem custo nenhum, para um público de centenas de milhares de eleitores de Franca e região, gente que acompanha o jornal Comércio da Franca, a rádio Difusora, o site na internet ou a TV Bem. Mas a vereadora e seus estrategistas preferiram fazer diferente. Simplesmente não vieram.


Graciela, cujo slogan de campanha é “coragem e ação”, não é a primeira nem será a última política a fugir de uma conversa franca e aberta com jornalistas. Nesta terça-feira mais um candidato a deputado por Franca vai deixar de expor suas idéias neste espaço democrático. Roberto Engler, do PSDB, já avisou que não vem. Teve pelo menos a decência de informar com antecedência. O deputado, que disputa a reeleição, julga mais importante presidir na Capital um evento que presta homenagem à comunidade alemã no Brasil. Aparentemente, nada no evento tem qualquer relação com Franca, população que Engler representa na Assembléia. Mas é um direito dele não vir. Como é o de Graciela. Difícil é saber se é o que deles esperam os eleitores.


No plano federal, Dilma Roussef (PT), José Serra (PSDB), Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (Psol) tem lutado bravamente por cada mínimo espaço disponível para expor suas idéias. Vão de um compromisso a outro, de uma entrevista a outra, sempre na tentativa de levar aos eleitores suas propostas para o Brasil. A chance de expor o que pensa é tão relevante para um político que todos cancelaram suas agendas públicas na última quinta-feira para se prepararem para o primeiro debate na rede Bandeirantes. Vale o mesmo para os candidatos ao governo paulista que tem cruzado o Estado, diariamente, em busca do ativo mais importante para qualquer um em campanha: espaço e oportunidade para expor livremente suas idéias.


Aqui em Franca, alguns de nossos candidatos parecem ignorar que a essência da atividade política é conversar e debater. Para quem quer uma vaga no parlamento - cuja palavra em sua raiz latina quer dizer exatamente “falar” - tanto pior. Grande parte da sua atividade reside exatamente em debater e discutir idéias e projetos com colegas, a imprensa e os eleitores. Aparentemente, pela facilidade com quem abrem mão das chances de dialogar, através de jornalistas, com a população, alguns de nossos candidatos avaliam como pouco relevante dar explicações àqueles a quem desejam dirigir, em tese, seu trabalho: o eleitor. É uma pena - e muito ruim - que seja assim.

 

CORRÊA NEVES JÚNIOR 
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br