08 de julho de 2026

Lembrança de meu pai


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Por mais de uma vez li e reli neste caderno Nossas Letras a rica e bonita crônica do inspirado professor Luiz Cruz de Oliveira com referências aos tempos idos e vividos em uma parte da Rua Voluntários da Franca, no alto da Estação. O professor, através do personagem Sô Chico, fez-me ver de novo ruas, praças, esquinas, pessoas do bairro que pareciam estar voltando de um passado bem distante. Até me causou arrepios quando Sô Chico mencionou a Pensão São Sebastião, fazendo-me lembrar o dia em que minha saudosa mãe Sabina Calixto Moherdaui, mulher corajosa, se atreveu a comprar a tal pensão e enviou a meu pai, o saudoso Abdo Moherdaui, lá em Rifaina, lacônico recado:


—Acabo de comprar aqui em Franca uma pensão. Arrume a mudança, a filharada e venha de carro ou caminhão porque só falta a sua assinatura no cartório.


Na minha memória irrompem lembranças de como era o dia-a-dia ali na pensão de propriedade da família Moherdaui. Meu pai, a esperar todas as tardes na porta do prédio pessoas amigas que vinham de Rifaina no trem da Mogiana. De hóspedes amigos, meu pai quase nunca cobrava a hospedagem. Jabra, o meu irmão já rapazinho, a se preocupar com as finanças de onde lhe sobravam sempre alguns trocados; esperto o meu irmão. Minhas três jovens irmãs a se revezarem entre pratos e talheres no serviço das mesas de refeições cobertas com toalhas muito limpas sempre. No canto da sala, numa mesinha com flores, o rádio de válvulas sintonizado sempre na Rádio Nacional do Rio de Janeiro e, quando não, a lânguida voz de Francisco Alves a envolver o ambiente. Eu, adolescente, só estudava, pois o que queria mesmo era ser professora. Maria Roxa, a morena gorda e sorridente, cozinheira que balançava os peitos enquanto lidava com as panelas no fogão. Palitó, o marido, ajudante na cozinha, sempre solícito a carregar malas arregalando os olhos à espera de gorjetas.


Depois de cinco anos de trabalho árduo, minha mãe estava bastante cansada e meu pai, mesmo a contragosto dela, vendeu a pensão para o senhor Anísio Barcelos, vindo com mulher e filhas lá do Ribita-Unha, zona rural de Pedregulho.


Hoje, ao passar por ali, paro a olhar o chão de pedras onde meu pai e minha mãe em um tempo passado pisavam firmes e fortes num trabalho fatigante, mas, tenho certeza, pensando somente em proporcionar à família um futuro mais próspero e feliz.


— Professor Cruz, pergunte ao Sô Chico, seu personagem, se ele conheceu um dia no bairro da Estação aquele homem, sírio bom e inteligente, que foi dono de uma pensão frente à Praça Sabino Loureiro. Era o meu pai, o Sô Abdo Moherdaui.

 

Farisa Moherdaui
Professora