O poema dramático Salomé, de Oscar Wilde, que se destaca pela intensa carga simbólica, inspirou a peça composta em 1891 no melhor momento de produção literária do autor. Escrito inicialmente em francês e depois traduzido para o inglês, o texto passou por sérias emendas que geraram críticas do próprio Wilde, que julgou o resultado decepcionante. A edição da editora Berlendis & Vertecchia chega agora com crivo do tradutor Ivo Barroso, que afirma ser esta, possivelmente, a primeira no Brasil traduzida diretamente do original em língua francesa. É o que comenta o editor Bruno Berlendis:
“Por que editar Salomé? Por que do francês? Essa segunda pergunta mal se formula para nós, na Berlendis & Vertecchia: trabalhamos sempre com traduções diretas. O caso de Salomé é particularmente ilustrativo, pois as divulgadas versões inglesas perpretaram incorreções e interpretações um tanto ‘particulares’ para a obra. Aliás: hoje em dia, nem tão divulgadas assim. Um tanto inexplicavelmente, a peça de Wilde parecia amargar uma espécie de indevido ostracismo. Não apenas no Brasil, são raras, atualmente, as edições críticas ou comentadas. É preciso fazer justiça à peça; é preciso devolver-lhe o devido lugar na dramaturgia e na literatura do fin-de-siècle. Esse é o nosso esforço e nossa motivação: prover condições para que o público, a crítica e o meio teatral possam julgar a obra de Wilde segundo seus próprios parâmetros”.
O livro traz a história da princesa/enteada Salomé, que dança sobre o sangue de João Batista para aplausos do tetrarca/padrasto Herodes Antipas, conforme sugestão de texto bíblico. Salomé pede a cabeça de João (Iokanaan), o primo de Jesus Cristo que batizara o Messias nas águas do Rio Jordão, (dizendo ao povo que os cercava que estava ‘diante de alguém a quem não era digno de desatar as sandálias’). Paralelamente ao relato, aparecem textos explicativos comparando as traduções em inglês e francês, curiosidades como os originais bíblicos que fundamentaram a peça, além de trechos relacionados ao tema, assinados por Fagundes Varela, Gustave Flaubert e Eugênio de Castro. O tradutor teve muito cuidado para que a peça não perdesse a sonoridade e ainda pudesse ser usada para ser encenada:
“A dificuldade que qualquer outro tradutor teria seria o tratamento. Se você tentar traduzir direto o francês vous dos diálogos, o texto servirá para ser lido mas não para ser encenado, pois o vós em português já saiu totalmente do ouvido brasileiro; não falamos mais vós em hipótese alguma na linguagem coloquial. Quando as pessoas se tratam em nível respeitoso, essa linguagem tem que ser respeitosa, e quando é íntimo deve ser íntima, daí eu ter usado nos diálogos do tetrarca com a princesa o tu impreterivelmente. Quem estiver na plateia vai entender perfeitamente, às vezes o tetrarca mistura o tratamento na mesma frase, passa logo para o tu e depois para o você se dirigindo a Salomé. Outro trecho em que o empregado trataria a princesa em francês, o autor resolve usando o vous, vous, vous... Eu usei, por exemplo, ‘a princesa vai’, uma forma inteligente que os portugueses usam, pois é elegante e não emprega o pronome, ou seja, possui momentos de profunda poesia sem deixar de ser teatral”.
Para que o leitor entre no clima, também foram selecionadas 16 pinturas relevantes que demonstram os diversos tratamentos artísticos do tema, assim como sua longevidade. As ilustrações vão do século XV ao século XX e incluem reproduções de obras de Rogier van der Weyden, Caravaggio, Ticiano, Jean Benner, Oscar Kokoschka, Frans Stuck, Gustav Klimt, entre outros. Três delas estão reservadas para o pintor Gustave Moreau, cuja obra deflagra o drama, como se vê na série que mostra Salomé dansant devant Hérode e L’Apparition, pintadas por volta de 1876. Pintores de excelência, como se vê, podem inspirar escritores idem.
Serviço
Editora Berlendis & Vertecchia
Tradução de Ivo Barroso
Páginas: 96
Formato:14X21
ISBN: 978-85-7723-025-9
Valor: R$ 32,00
Editora Berlendis & Vertecchia
Tel: 11 3085-9583
www.berlendis.com
Sobre IVO BARROSO
E-mail:ivo.barroso@infolink.com.br
Nicolau Kietzmann
Jornalista