08 de julho de 2026

Andaras


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No último sábado, último dia do mês de julho, no Ave, Palavra!, uma porta se fechou e surgiu uma crisálida.


Não, não se trata, neste caso, da crisálida habitual: lagarta encerrada em casulo que se acomoda no galho de uma árvore qualquer, e ali jaz de ponta-cabeça, aspirante ao céu. Esta é diferente. Inicia-se por asas abertas, vindas de um sol aceso no Leste mineiro. Asas que se recolhem em reflexões e reorganizações; cultivo de novas asas e memórias, para novas histórias de voos memoráveis. Guarda o ser migratório em processo de refazimento; borboleta de arribação a vestir-se de novas cores. Aspirante a sol em espaço de notas e letras, música e verbo; sabores e aromas de ser e estar em arte e afetos: novo Café com Prosa.


Mas a verdade é que, como qualquer borboleta, o Café com Prosa se abriu em asas de se ver e se cantar, e viveu pleno, durante toda uma semana de cores e corações, prosa e poesia. Como qualquer borboleta, bebeu néctares e alimentou olhos e almas, no jardim literário francano. Veio e se foi, como vem e se vai uma borboleta: amorável e fugaz.


Rosa me segreda, no entanto, que ele não se foi, assim, ido sem volta; assento cativo em nunca de núncaras. Está mesmo é encantado, viajante de se não ver, em uma espécie de Andara - a região-metáfora, o não-livro, ou livro invisível, do paraense Vicente Franz Cecim; “estrada / onde uma sombra longa, de homens, de pó, vai passando”; lugar onde “Um ventinho, vindo não se saberá nunca de onde, vem e desfaz o pó, / desfaz os homens // desfaz a sombra”. Andara que “às vezes não é nada. / Não é nada”, mas é fonte contínua de letras. Andara de onde emergem páginas e páginas, visíveis e palpáveis.


É isto: enquanto dura o encantamento do Café com Prosa, Luiz Cruz, seu inspirador, vagueia com ele pelos caminhos invisíveis de uma nova Andara; não amazônica, como a de Cecim, mas mineiro-paulista, cassiense-francana; recolhendo cores para as novas asas, entre esses seres invisíveis e sensíveis: os ventos desfazedores de sombras e construtores de arrepios; desenhistas de outros espaços abertos em acolhimento, páginas, imagens e história; entre odores de café e chá de maçã com canela; sabores quentinhos de mineiro/paulista aconchego.


Os amigos estão à espera da nova bagagem, que se somará à anterior, trazida de viagens memoráveis; já desenhadas, intituladas e recolhidas entre capas e contracapas.


Sinto que outros Cafés com Prosa estão borboleteando em horizontes andaranos (ou andarenses), a caminho de nossos lestes.
Aguardemos!

 

Eny Miranda
Médica, poeta e cronista