09 de julho de 2026

O menino que veio de Ribeirão Corrente


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O toc-toc da bengala nas pedras da calçada é inaudível, quer porque fica suplantado pelo ruído da rua, quer porque a audição dos moradores e balconistas da rua já assimilou aquela musicalidade de todas as manhãs. Também acostumados estão balconistas e moradores da Rua General Teles com a vestimenta do velho: terno branco, camisa escura, gravata sóbria, chapéu Panamá. Assim, à medida que caminha, ao invés de olhares curiosos, a passagem do velho provoca saudações alegres.

- Como vai, Sô Chico Franco?
- Bom-dia, Sô Chico.

A cada cumprimento, o homem leva a mão esquerda à aba do chapéu, fazendo menção de descobrir-se.

Quando está diante do consultório do doutor Luís Yamashita, um carro estaciona junto ao meio-fio, dele desce um homem bem vestido, de terno e gravata, o qual se posta diante do caminhante.

- Como vai indo, Sô Chico ?

Os olhos baços param no rosto do outro sem revelar medo ou susto.

- O jovem me conhece?
- Como não? Sou o Sindoval Bertanha Gomes.
- O menino que chegou de Ribeirão Corrente?
- Isso mesmo, Sô Chico.
- Nossa, a minha vista está cada dia pior... vou acabar tendo que usar óculos...
- Ah, mas o senhor lembrou de mim, isso é que é importante.
- O menino ainda mora na pensão do Anísio Barcelos e da Dona Maria Vilhione ?
- O senhor lembrou disso ? Então lembra que a gente ia a pé pro serviço? A gente descia e subia a Rua General Carneiro todo dia.
- Eu lembro tudo... Quando eu comecei a trabalhar na Prefeitura, ela ficava lá no prédio do Museu.... Foi o Antônio Vieira que me ensinou o serviço no Cadastro...

- O senhor tem memória muito boa.
- Isso eu tenho mesmo. Lembro que o menino ia pro Sindicato dos Fazendeiros, lá na Rua Monsenhor Rosa.
- Sindicato dos Trabalhadores Rurais...
-Ainda trabalha lá ?
- Não, não. Entra aqui no carro, eu vou levar o senhor.
- Não, jovem, eu só ando a pé. O coração do homem está nas pernas. Eu só ando a pé, por isso é que eu tenho coração de bronze, quem garante é o Doutor Robertinho Rached.
- O senhor está indo pra onde?
- Vou lá na cidade. Todo dia, saio da Estação, vou lá no centro e volto. O homem precisa caminhar muito.

- O senhor tem razão, mas entra aqui. Só hoje.
- Está bem... só hoje... Depois eu volto a pé.
- Carro chique.... Por acaso o menino tirou a sorte grande?
- Chique nada, Sô Chico. É uma condução... financiada.... mais do banco que meu.
- Hoje eu não vou ao banco não. Só vou quando tenho que pegar o dinheiro da aposentadoria. Trabalhei na Prefeitura, junto com o Denis. Ele aprendeu o serviço do Cadastro com o Antônio Vieira ... Quando fiz setenta anos, tive que sair. A lei é que obrigou... Qual é mesmo a graça do jovem?
- Sindoval.
- Ah, você morava na Pensão São Sebastião, do Anísio.. Peço desculpa ao menino, não reconheci na hora porque minha vista não anda boa. Mas eu lembro quando você veio de Ribeirão Corrente e foi trabalhar no Sindicato dos Roceiros...

- Sindicato dos Trabalhadores Ruruas, Sô Chico.
- Isso, lá na Rua Monsenhor Rosa, não é? A minha vista anda fraquejando, mas a minha cabeça parece de elefante, guardo tudo, não esqueço nada.
- Chegamos, Sô Chico.
- Ah, eu apeio aqui mesmo.

O velho desce do carro com dificuldade, leva a mão à aba do chapéu, descobre-se em agradecimento amplo.
- Vai com Deus, filho.

Sindoval circunda a Praça Nossa Senhora da Conceição e se vai para as atribulações de mais um dia no escritório de advocacia. Vai compenetrado, sabendo que, durante dias, a imagem de um velho querido estará impregnando laudas, petições e processos.

 

Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras