Para Mirto, Willian, Iêda
Ana não teve pai. Óbvio que alguém foi lá e colaborou para a existência dela, e que esse alguém foi um dia marido de sua mãe, mas, na prática, a figura paterna ‘clássica’ não existiu em sua vida.
O imprestável pai foi mandado embora muito cedo (atitude corajosa da mãe de Ana), deixando-a e ao irmão aos cuidados da progenitora. A mãe, sem condição alguma (psicológica, financeira) de cuidar das crias fez o que as mães fazem quando se sentem em apuros: voltam-se para as suas próprias.. E foi na casa dos avós maternos que Ana cresceu, junto ao irmão, a avó e tios.
Esse pai que nunca veio, ou que se foi tarde demais, foi substituído (não com facilidade) pelos tios “doidões”. O avô - que acabou morrendo cedo - fez seu papel durante algum tempo, mas foram os tios malucões (meio hippies, politizados, um pouco aloprados e um tanto rebeldes) que ficaram lá, velando pela alma das duas crianças. A mãe de Ana, exemplo típico de Malu Mulher da época, foi à luta, estudou e voltou ao mercado de trabalho, refez sua vida afetivo-amorosa mesmo tendo nas costas a pecha de ser uma ‘desquitada’ nos anos 70. E nessa estrada, teve que dividir a responsabilidade de encaminhar os meninos com seus irmãos.
Ana lembra com carinho das noites em que o tio caçula passava tocando violão. Com ele era belo! Louro, forte feito um touro, olhos azuis. Cantava mal, isso é verdade, mas cantava, “Menina” para ela de um jeito que Ana nunca conseguiu esquecer! E era um sonhador, amante de Elvis, galã das meninas do bairro e paixão de todas as primas da família.
O tio mais velho, militante de esquerda e intelectual, tornou-se seu ídolo, sua paixão. Era ele quem dava as broncas ou fazia os elogios, quem estabelecia os horários, quem via o boletim e as unhas, quem comprava os livros escolares e quem pagava o curso de inglês. Era ele quem os levava, a ela e ao irmão, todo sábado de manhã, ao Café Globo (para ver o Bigode) e à Martins (pra conversar com o tio Ênio). Ele era o tio beijoqueiro e bravo, o tio que lia Drummond e Garcia Marques, que assistia Godard, que chorava sem medo, que machucava o coração quando fazia uma crítica mas que os amava sem pudores...
Recentemente pensando na frase do grande poeta Manoel de Barros (“o tempo só anda de ida”), Ana tem-se quedado nostálgica por ocasião do dia dos pais. Olha para os dois tios hoje, tão distantes que estão, tão mais velhos e mais mudados, e sente uma vontade enorme de agradecer por tudo que fizeram e representaram. O estranho é que não consegue...
Quis o destino que essas duas figuras nunca se casassem ou tivessem seus “próprios” filhos. Precisava?
Claudia Filipin
Leitora