Estudei no Ginásio do Estado, no tradicional IEETC ( Instituto Estadual de Educação Torquato Caleiro) e não precisei de fazer cursinho para passar nos vestibulares. Além dele, o Estado mantinha apenas mais 2 cursos de ensino médio em nossa cidade: o Davi Ewbank e a Escola Profissional Júlio Cardoso. O ensino era rigoroso e os alunos freqüentavam as aulas com o objetivo de aprender o conteúdo das matérias e não simplesmente para manter um certo relacionamento social. Havia disciplina dentro e fora das classes .
O IEETC tinha como diretor o Prof. Júlio César D’Elia. Era um homem de uma certa imponência. Falava pouco, mas suas palavras eram fortes e firmes. Costumava trajar-se com um paletó claro e mais uma gravata escura. Quando aparecia no pátio da Escola, fazia-se um silêncio absoluto. Cessavam as correrias, as gritarias, as brincadeiras, as algazarras. Os estudantes , receosos, comunicavam-se com um:
-Lá vem o Seu Júlio.
E o Júlio vinha e trazia um clima de respeito e sobriedade em cada canto por onde passava..
O Prof. D’Elia não era violento. Não batia e nem gritava com os alunos. Enérgico: esta palavra servia-lhe perfeitamente de definição. Aplicava a lei do estabelecimento. Suspendia o aluno quando tinha de suspendê-lo e expulsava-o se a falta fosse muito grave. E não havia pai reclamão ou órgão de defesa do adolescente com força suficiente para demovê- lo..
Além das penalidades por indisciplina, os alunos poderiam sofrer punições por deficiência de aprendizado tais como a segunda época, a dependência, a bomba e o jubilamento. As penas mais severas eram a expulsão e o jubilamento. Expulso ou jubilado, o aluno não poderia mais freqüentar um estabelecimento de ensino público e gratuito. Só encontraria vagas numa escola privada e paga que, geralmente, oferecia um ensino de baixa qualidade, sem condições de enfrentar uma prova do ENEM.
As coisas mudaram. Atualmente é o ensino público que está em baixa. Quais os culpados? Os professores? Os diretores? A nova pedagogia? Basta que o prezado leitor entre numa sala de aula para perceber a origem do problema. A balbúrdia é geral e o desrespeito uma conseqüência. A autoridade faliu, a indisciplina tomou conta e onde não há autoridade e disciplina não haverá também condições para o estudo. As escolas oficiais multiplicaram-se pelo Brasil . Todos podem estudar, ou melhor, fingir que estudam. Contudo, a educação foi nivelada por baixo, isto é, ao sabor, ao gosto e às possibilidades da nova clientela. E a nova clientela é bem diferente daquela de 40 ou 50 anos atrás. O prezado leitor há de concordar comigo: educar a “burguesia”é muito mais fácil do que educar a “periferia”.
Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras