Pensando bem, tive pai por muito pouco tempo. Embora tenha partido há anos, as lembranças deixadas são fortes.
Defendia e exaltava as qualidades do meu irmão mais velho: o ódio ainda tem o mesmo gosto hoje, de quando a sua cara irônica aumentava de tamanho porque vencera batalhas, aquelas que irmãs de família italiana sempre perdem para o primeiro filho maschio... Papai nada tinha de perfeito. Só era bonito de doer. Loiro, olhos azuis, cara de galã. Mamãe se esvaía em ciúmes até quando - teoria minha - percebeu ser muito mais forte, corajosa e empreendedora. Acredito que aí ela relaxou e inverteu a situação. Ele, aquela beleza. Ela gordinha, cabelo crespo, uma mulher de cama, mesa, cozinha, forno e fogão, olhos perscrutadores, viva, inteligente. Viveram bem, felizes e juntos, até uma barbeiragem médica o levar. Enviuvou muito nova, nem tinha cinqüenta anos. Questionadas sua solidão e o desperdício, respondia ‘Deuuuuus me livre! Vou amar seu pai até morrer!’. E cumpriu.
Tiveram quatro filhos, que ele amou como pai forte e generoso. Deixou saudade. Hoje temos bons dentes: arrancava-nos da cama, dormindo, para escová-los. Somos sadios: levava-nos para as vacinas, exigia que comêssemos verduras e frutas. Contava histórias, cortava nosso cabelo, unhas, dava-nos banho, ajudava-nos a vestir, a fazer lições de casa. Não tinha a menor paciência para nos ouvir; não tolerava ser interrompido quando falava; não dava brecha para retrucarmos. Bom humor demais e tolerância mínima. Era violento quando explodia - e não era tapinha na bunda, não. Dizia não ter filha para casar, estimulava estudos, imaginava-nos com bela carreira, ganhando dinheiro para ‘não depender de marido’. E queria que falássemos pelo menos uma língua estrangeira!
Durante a adolescência e parte da juventude quis um pai herói. Um pai que em tudo fosse diferente do meu. Idealizado, perfeito. Que fosse elegante, bem vestido, tivesse maneiras educadas, não explodisse com a gente com platéia assistindo. Imaginava-o sentado na poltrona da sala e, ao invés do jornal de esportes, lendo livro complicado. Adulta, percebi que ele jamais chegaria perto desse ideal e hoje fico pensando se sou a mulher que ele queria que eu fosse. Deixou-nos lições preciosas. Por exemplo, a certeza de que se tivesse poder (político ou civil), jamais faria da função um recurso para distribuir mordomias ou tiraria proveito de situação privilegiada em benefício próprio - era dessas pessoas para quem a honra não era moeda de barganha. Defensor dos mais fracos, explodiu diversas vezes com malandragens alheias. Nunca soube, porém, de qualquer maracutaia sua. Não éramos as mais lindas meninas do mundo, mas ele nos fazia sentirmos especiais e, garantia, beleza física, corpo torneado, roupa nova jamais encobriria nossa feiúra interior: tomássemos cuidado com as belezuras internas - que ninguém vê. Nunca convidou seu chefe para o restaurante da moda, mas volta e meia encontrávamos Luzia - tipo popular e aviltado da cidade - jantando, com mesa posta e tudo: encontrada chorando na rua, era consolada na nossa sala de jantar.
Não sabia tocar qualquer instrumento musical, desafinava, adorava Miguel Aceves Mejia mas ajudava horrores simplesmente segurando o fio terra do rádio transistorizado, sentado no degrau da cozinha para alegrar mamãe enquanto confeitava bolos, sintonizadíssima na Parada dos Maiorais, da Rádio Nacional. Aprendi a gostar de ópera com ele. Nunca fez por merecer homenagens públicas, mas ainda me sinto protegida como quando nós, crianças, éramos transportadas na garupa e no cano da sua bicicleta e levadas para a escola. Ao morrer não deixou bens materiais, mas um fenemê de joias preciosas como exemplos, valores e virtudes.
Verdade, tive pai por muito pouco tempo. Quer dizer, tive pai que eu pudesse beijar no Dia dos Pais por muito pouco tempo: menos da metade desta minha vida. Mas tenho pai cuja lembrança é permanente e que, como por milagre, se materializa toda hora em nós, filhos, nos nossos filhos e agora, nos netos.
PAI ÍNDIO
Em algumas tribos indígenas brasileiras o resguardo é guardado pelo pai, quando nasce o bebê. Os parentes levam-lhe presentes e, por dois meses, alimentação leve e nada de sexo! Acredita-se ser ele o responsável pela existência do filho que, aliás, só cresce no útero materno por causa das constantes ‘visitas’ do futuro pai à futura mamãe. Tal esforço nas relações sexuais por nove meses, exige repouso posterior.
PAI JUDEU
O pai judeu é responsável pela educação religiosa dos filhos. O menino, a partir dos sete anos, começa a aprender os rituais religiosos. Aos treze é levado à sinagoga onde, depois do Bar-Mitzva, torna-se membro efetivo e participante da comunidade. Nas famílias judaicas os pais são absoluta e incondicionalmente obedecidos e respeitados.
PAI CIGANO
Pai cigano é poderoso. É dele a decisão final sobre qualquer atitude dos filhos. Supervisona a educação que a mãe dá. Ensina aos filhos as técnicas de comércio. Transmite (oralmente) os conhecimentos adquiridos pelas gerações anteriores: tocar um instrumento musical, fazer artesanato de cobre e falar o romanês – língua de seu povo. Quando termina o casamento, termina o poder do pai sobre o filho bem como o contato deles pelos próximos dez anos: o fim do casamento representa o fim da paternidade.
COMEMORAÇÕES
O primeiro aconteceu em 19 de junho de 1910, em Spokane, Washington. Em 1972 Nixon proclamou oficialmente o terceiro domingo de junho como Dia dos Pais. A Argentina e Inglaterra seguem a mesma data. O pai brasileiro ganhou o seu, em 1953. Em São Paulo, a data estreou em 1955. Na Itália e em Portugal, acontece no 19 de março, Dia de São José; na Austrália, no segundo domingo de setembro; na Rússia, 23 de fevereiro.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br