09 de julho de 2026

Um escuro meio-dia


| Tempo de leitura: 2 min

Sabe aquela hora do dia em que o sol está bem a pino? E para piorar a situação, não há uma só nuvem sobre a terra seca? Exatamente neste momento, todo e qualquer animal procura uma sombra para se abrigar. Menos o homem. Este não se aquieta. Não importa a hora, o importante é ganhar dinheiro, seja lá de que jeito for.


Da cana, antes vinha o açúcar. Hoje, além do pouco saudável alimento, vem o álcool também. Agora, tem gente apregoando que se deve falar etanol. De qualquer modo, quem perde é a terra com tal cultivo. Solo maltratado afeta a vida de todos. Se não bastasse isso, de quebra surgem os males provocados ao aparelho respiratório por queimada em canavial.


Pela legislação vigente no Estado não se pode colocar fogo em canavial das 6 às 18 horas. No entanto, a norma parece ficar somente no papel. Na prática, o que mais se vê nas redondezas são nuvens de fumaça em pleno dia. Fogo fora do horário fica sempre por conta da casualidade. Alguém colocou. Ninguém viu. Nenhum dono de usina assume a autoria do incêndio.


Quarta-feira passada, por volta do meio-dia, na curva do Km 6 da Rodovia Vicinal Nelson Nogueira (liga Franca a Ribeirão Corrente, com saída pela Vila São Sebastião) havia um pequeno foco de fogo no acostamento. Por perto não tinha ninguém que pudesse ser o incendiário. Nenhum veículo passara pelo local naquele instante. Ao lado das labaredas iniciais estava um canavial. Dois minutos depois, a cerca de um quilômetro do local, era possível ouvir o barulho de vegetação seca sendo queimada. As labaredas atingiam quase cinco metros de altura, logo depois delas surgia um imenso tufo de fumaça. O claro e limpo meio-dia tornou-se escuro. Uma enorme nuvem de fumaça eclipsou o sol e se espalhava rumo à zona oeste da cidade.


Meia hora depois o fogo estava todo controlado. Coincidência, já havia um caminhão-tanque na fazenda pronto para acompanhar a queimada. Fizeram o direcionamento do rescaldo rapidamente. O fogaréu atingiu apenas o capim do acostamento e o canavial. A fumaça subiu alto e virou uma nuvem escura. Muita gente até pensou que fosse chover.


E choveu mesmo muita cinza pelo resto da tarde. Em vários pontos da cidade, os quintais ficaram forrados dos resíduos da fumaça. As roupas molhadas se acinzentaram nos varais. As pessoas respiraram um ar ainda mais seco até o começo da noite. Maior número de crianças e idosos precisou fazer inalação para desbloquear as vias respiratórias.


Mas no fim, tudo vira lucro. A mão-de-obra para colher a cana vai ter um preço menor. O álcool, ou melhor, o etanol custa sempre bem menos que a gasolina. Os medicamentos para alergia serão comercializados em larga escala.


Multa pela queimada realizada fora do horário pré-estabelecido por lei ambiental dificilmente haverá. Resta a sujeira e a coriza.

 

Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br