08 de julho de 2026

Deixem morrer em paz...


| Tempo de leitura: 4 min

Prometi ao Sérgio Marques, editor de Esportes deste Comércio que não me meteria mais a comentar futebol. Mas não dá para deixar para lá.

Aos jogos da Francana vou há pelo menos 50 anos. Meu pai, “seu” Domingos - sim, aquele mesmo, da Casa Syria, onde trabalhou quase toda a vida - arriscou alguns chutes no time, lá pela década de 30 do século passado, mas era o basquete que o encantava, atleta que foi das primeiras equipes que esta cidade teve, e que na semana que vem, conto. Era esportista, um grande esportista e passou-me gosto pela bola. E a Francana era tudo.


Quando fiz 7 anos fui com ele, pela primeira vez, ao Nhô Chico. Tomei gosto. Cresci e continuei acompanhando a Francana com meu pai. Nosso clube não brincava. Montava bons times, promovia jogadores da cidade e da região. Treinava e jogava no Nhô Chico, campo próprio, sem dever nada a ninguém. As principais equipes de São Paulo tremiam, ao encarar a Francana. Lembro-me que o grande São Paulo, de Suly, Prado, Roberto Dias, Jurandir e Zé Roberto veio a Franca e sofreu muito, aqui, para arrancar um empate nos últimos momentos. Era uma época de ouro. Daquele jogo, dois avantes encantaram a diretoria de nossa equipe. Menos de um semestre depois, Prado e Zé Roberto saiam do São Paulo para jogar... na Francana. Prado ficou pelo caminho, ao receber uma proposta irrecusável de outra equipe. Zé Roberto veio. Viveu aqui a melhor fase de sua carreira. Era o homem dos gols de bicicleta. Sei que muitos lembram...


A equipe, de aprendizado em aprendizado, chegaria à Divisão Especial do Futebol de São Paulo e ao Campeonato Brasileiro. Foi, mas voltou. Houve um tempo em que o futebol brasileiro mantinha Pelé no Santos, Ademir da Guia no Palmeiras, Rivelino no Corinthians. Dinheiro não era tudo. De repente, a superexposição dos atletas e o gosto pelo ganho arrebentaram com tudo.


Deu no que deu: hoje, garotos de 9, 10 anos, talento apenas desabrochando, são importados para a Europa, pais e família à tiracolo.


As equipes brasileiras descobriram a mina. Formaram grandes centros de treinamento e passaram a prospectar talentos por todos os cantos. O futebol dos gramados virou vitrine. Coincidiu essa revolução com o definhamento dos pequenos clubes, penalizados com a segunda, a terceira divisão.


Eu e “Seu” Domingos continuamos testemunhando. Perdemos pouquíssimas partidas da Francana, em Franca. Assistimos estarrecidos o desmonte da agremiação, os recursos dos associados do clube social serem transferidos ao pagamento de dívidas do futebol e a diretores que “emprestavam” dinheiro para a manutenção do time.


Vimos o uso da agremiação e da marca do time como trampolim político ou ferramenta de lavagem de dinheiro a “salvadores da pátria”. “Caímos” para a segunda e para a terceira divisão, junto com o time. Era quase incompreensível mas os olhos atentos nos ajudaram a compreender. Hoje, fundo do poço, estamos entregues a empresários, para não fechar as portas. Acho que não dá mais para sonhar.


Há um pequeno consolo. Na segunda e terceira divisões de São Paulo estão nossos iguais, clubes hoje sem dinheiro que por incontáveis anos fizeram a tradição da primeira divisão, caso do Juventus (um dos mais importantes clubes associativos do País que, para refortalecer-se, deixou o futebol de lado), da Portuguesa Santista, o Comercial, a Ferroviária, o Marília, o América de Rio Preto, o São Bento de Sorocaba.


A Francana de hoje não tem suporte financeiro para investir em nada. Não tem campo para treinar. Não temos jogadores. O patrimônio da Simão Caleiro está sendo pulverizado dentre credores e definha. Não restará nada. A Francana de tanta pujança em outros tempos, pede esmolas. Depende de homens que ainda sonham com alguma coisa, heróis nas vitórias - poucas, produzidas por sorte nossa e azar de equipes estruturadas - e bandidos nas derrotas, nas muitas derrotas.


Sei que há esportistas com as melhores intenções. O problema é que há ainda mais gente vendo na Francana, caminho para se locupletar. Tomara que o Conselho Fiscal e o Deliberativo acabem logo com esse delirium tremens. Deixem a Francana morrer em paz...


PS - Claro que milagre existe. Um companheiro de jornal procura um título de sócio-proprietário dos antigos, para comprar. Quer presidir o clube “rumo a Tóquio 2020”.

 

SINDIFRANCA
A posse de José Carlos Brigagão para novo triênio frente ao Sindifranca foi diferente. Ao invés de discursar, preparou um desenho animado e mostrou as realizações de sua diretoria. Gostei. Em vídeo, cada realização teve o depoimento de alguém. Ficou dinâmico e o tempo passou rápido. Ao final, a apresentação da banda vocal Perseptom, espetáculo digno de figurar entre as mais importantes manifestações artísticas deste País. Faço questão de indicar uma visita ao site http://www.perseptom.com.br/. São considerados por associação de canto à capella norte-americana, como um dos melhores grupos vocais do mundo.


CAFÉ E LITERATURA
Os organizadores do evento também inovaram ao brindar os presentes com kits contendo café em pó e literatura francana, com exemplares de Uma bolsa grená, Os Contistas do Comércio, O poço e outras histórias, Estações, de Sônia Machiavelli e Vivalei, Deuses mutilados, Via Crucis, de Luiz Cruz de Oliveira. Foi interessante observar a surpresa com que muitos feliz encontraram as obras e se puseram a folheá-las ali mesmo.

 

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br