Já fica menos assustadora, embora não menos repulsiva, a história do goleiro do Flamengo. O tempo tem este poder de afastar de nossa memória os efeitos especiais que nos impactaram no momento inicial em que nos foram relatados. Foi assim com os Nardone, antes destes com Suzane Ritchtofen.
Ainda bem que as páginas arrancadas dos calendários vão apagando as marcas mais perturbadoras. Deve ser um tipo de proteção da própria mente; assim ficamos menos vulneráveis a esta lembrança dolorosa que traz à tona a verdade que nos atordoa: muitas feras ainda habitam nosso espaço selvagem. Os predadores estão apenas hibernados, e não sepultos definitivamente, conforme alguma hipocrisia ou muita ignorância ousam às vezes sugerir.
Nossa dualidade é fato, basta voltar um olhar atento e honesto para o interior mais recôndito.O que pode diferenciar sãos de insanos é linha de tênue equilíbrio, passível de ser transposta segundo o grau de tensões e descompensações aliado à capacidade de suportá-las e reelaborá-las.
A literatura de todos os tempos e povos trata destes temas e Shakespeare, depois Dostoiévski, ambos de maneira magistral, conceberam personagens que até hoje nos deixam perplexos pelo frustrado exercício de estabilidade nesta corda bamba que divide o bem do mal, lembrando a todo instante o equilíbrio distante.
Se o bardo inglês elegeu no século XVII cortesãos para representar na palheta da condição humana as muitas cores da tragédia, e o russo pinçou no século XIX os loucos e desequilibrados que passavam por cidadãos normais nas ruas da emblemática São Petersburgo, no último quartel de 1800 um escocês excêntrico mergulharia na ascendente burguesia londrina para dela retirar um tipo que pelas ressonâncias no subconsciente do público se tornaria personagem universal. O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr Hide, publicado em 1886, ganharia nas décadas subsequentes mais de vinte traduções ( no Brasil recebeu o título de O médico e o monstro) e se tornaria um dos romances mais vendidos no século XX. Embora Robert Louis Stevenson, seu autor, tenha escrito uma obra-prima chamada A ilha do tesouro, que inspirou escritores do porte de um Jorge Luís Borges, foi com o duplo Jekyll/Hide que se tornou imortal.
A história mostra um médico, chamado Jekyll, que tenta provar a alguns amigos que existe no humano porção animal que nunca está totalmente domada. Usando uma fórmula misteriosa, produz uma beberagem que trará à luz a besta. Acontece que o efeito passa, conforme era esperado; mas, diferentemente do que imaginava o médico, Hide reaparece em momentos inesperados, tornando Jekyll refém desta criatura abominável que comete crimes e atrocidades na Londres de fim de século.
É uma metáfora rica, para o mal que nos é imanente e contra o qual devemos lutar. Em primeiro lugar, admitindo-o; em segundo, colocando em ação nossas capas civilizatórias; em terceiro, aceitando que os estímulos a que somos submetidos a todo momento formam a circunstância que pode modificar a manifestação de nosso eu.
O cinema aproveitou a história de Stevenson e produziu várias versões desde a primeira, de 1941, ano em que Victor Fleming dirigiu Spencer Tracy, Ingrid Bergman e Lana Turner em Dr. Jekill e Mr. Hide. Considerado “essência, perfeição e virtude do gênero terror e ficção científica”, o filme ganhou no ano seguinte o Oscar. Seriam necessários outros anos, diretores, atores e mudança de mentalidade para que a história fosse melhor entendida em suas camadas mais profundas de sentido que esbarram em temas caros à Psicanálise.
A propósito, estreou em São Paulo no dia 18, no teatro Bradesco, a montagem brasileira da peça Jekyll & Hide- o Médico e o Monstro, com Nando Prado no papel título. Nando foi protagonista de Miss Saigon e de O fantasma da ópera. Na pré-estreia para convidados, no dia 8 de julho, o público entendeu porque, ao disputar o papel com outros atores de peso, ele conseguiu levá-lo. Na cena mais impactante, e desafiante para qualquer ator, pois mostra Jekyll se debatendo com Hide, ficaram evidentes a competência e a sensibilidade do artista. É um bom programa para quem vai a São Paulo nos próximos meses, já que a peça fica em cartaz até outubro. É também um convite para meditar sobre a complexidade da alma humana.
Serviço
Título: Jekyll & Hide- o Médico e o Monstro
Adaptação: Fred Hanson ( do romance A estranha história...)
Autor: Robert Louis Stevenson
Onde: Teatro Bradesco- Rua Turiassú, 2100,SP, telefone 011 3670-4141quanto custa; R$40 a R$190
Quando: quintas, às 21h, sextas, às 21h30, sábado, às 17h e às 21h; domingo às 18h.
Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço