Muito atenta à cutícula, ela vai me contando sua vida com os bichos. Morando em casa pequena teve que se desfazer do seu pastor alemão. Ouve uns latidos na vizinhança, e sente saudades dos latidos do seu.
Detalhista, borrifa água, empurra pelinha, tira pelinha, movendo, precisa e rápida, o instrumento cortante e me fala do canarim, que está com ela há cinco anos. Teve dois pássaros pretos, e não aguentou mantê-los em gaiola. Convenceu o marido e soltou-os, depois de um tempo.
Quieta eu fico enquanto ela esmalta, passa creme e me entrega as minhas mãos, limpas, leves, asas perfumadas que me retornam: livres.
Penso nos seus pássaros pretos perdidos ao léu...feito o seu olhar.
Feito o meu olhar, tentando ver através da névoa as negras asas libertas do seu olhar.
Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga