08 de julho de 2026

‘Escrever é ato de coragem’


| Tempo de leitura: 6 min
Professor e escritor comemora 40 anos de carreira e é tema de exposição

Na última quinta-feira, já entrado no clima de comemoração pelos 40 anos de vida literária, Luiz Cruz de Oliveira esteve no Café do Comércio para uma conversa que durou duas horas. Trajando camiseta na sua cor confessadamente preferida, o vermelho, e estampando na face o sorriso de quem se permite celebrar a publicação de 27 livros, falou de sua carreira de escritor, do seu processo de criação, do relacionamento com os leitores, de estilo e influências, da evolução do indivíduo que se reflete no conjunto da obra, de emoções, de seu personagem Franco, cujas peripécias os leitores acompanham nas páginas do caderno Nossas Letras, e da festa que os amigos prepararam para este final de semana. Indignou-se contra o poder público que não tem um olhar minimamente cuidadoso em relação à produção literária francana. Deixou também desvelado que a gratidão é um dos sentimentos que ajudam a defini-lo.


Comércio da Franca - Por que e quando escrever?
Luiz Cruz -
Para desabafar, por necessidade de trazer para fora o que germina e cresce. Quando a angústia beira o insuportável. É como um parto: tem de colocar para fora. É escrever ou morrer.
 

CF - É escrever e desnudar-se.
LC -
Sim, por isso digo que escrever é ato de extrema coragem. Ficamos nus diante do leitor. Ler uma obra de ficção é conhecer os recantos mais íntimos da alma do autor, às vezes desconhecidos até dele próprio. Não se pode ter pudores.
 

CF - Outra Janela em Graciliano é o nome de sua primeira publicação, há 40 anos. O autor de Vidas Secas é seu modelo de escritor?
LC -
Quando comecei a escrever, busquei nele um modelo, porque o admirava e continuo admirando. Acho que mirei a profundidade de Graciliano Ramos, conjugada à clareza de Manuel Bandeira. E também à de Vinicius de Moraes. Foram autores que me inspiraram.
 

CF - Concisão, clareza... e densidade, pois seus enredos e personagens são densos.
LC -
Procuro sempre maior profundidade, é uma busca constante. Um treinamento. Ainda não consegui treinar com precisão as ferramentas.
 

CF - Isto é modéstia.
LC -
É consciência que tenho de que sou limitado.
 

CF - Como é escrever para o leitor de jornal?
LC -
É experimentar a possibilidade de uma comunicação mais ampla. A crônica condiciona um tipo de discurso que permite maior espontaneidade. Ela elimina um defeito do professor de Português que é exigir na escrita formas que não têm correspondência no coloquial. Tenho procurado prestar ainda mais atenção à fala do nosso povo para traduzi-la em minhas crônicas.
 

CF - O Franco tem dado retorno?
LC -
Muito. Outro dia me ligou um leitor me perguntando aflito se eu tinha matado o Franco, pois naquele sábado eu havia interrompido a série com o personagem.
 

CF - Por quê?
LC -
Havia sentido uma necessidade premente de escrever sobre algo que estava me incomodando. Precisei parar e colocar para fora.
 

CF - Depois voltou ao Chico Franco...
LC -
Voltei e logo no dia seguinte um homem que pilotava uma bicicleta parou ao meu lado e pediu: “Coloque o nome de meu pai na história do Franco. Foi meu pai quem ensinou o Dênis” (Dênis é um personagem usado na composição do Franco).
 

CF - Você gosta deste retorno do leitor?
LC -
Gosto muito! É um apoio. Nunca me  esqueço de alguns, especiais. Um dia, numa das edições da Feira do Escritor Francano, no Shopping, um homem se aproximou, apresentou-se como juiz em Poços de Caldas e falou: “Cruz, Vivalei é sua obra-prima.” E há muitos anos, em Brasília, outro leitor, por coincidência também da área do judiciário, me abordou e disse que o romance Deuses Mutilados era a maior homenagem que um filho poderia ter prestado a seu pai. Ambas são lembranças boas, ajudam a prosseguir.
 

CF - Fale um pouco sobre Deuses Mutilados.
LC -
Foi um livro difícil de escrever. E mesmo não tendo nada a respeito de meu pai, é inteirinho sobre ele.
 

CF - Um livro mais fácil de parir.
LC -
Bilhetes. Saiu rápido. Coisa de semanas. Já tinha vários pequenos textos e fui organizando, ao mesmo tempo em que ia criando outros.
 

CF - E seu processo de criação, como acontece?
LC -
Antes me acompanhavam cigarro e café. Parei de fumar, ficou o café. As idéias costumam surgir à noite, ou enquanto caminho. Quando vou almoçar, sempre no mesmo restaurante, enquanto espero rabisco os esquemas que depois desenvolvo. Em casa não escrevo, não consigo. É telefone que toca, é gente que chega, não dá.