Os dois textos abaixo, passarinha e carta, pertencem ao livro Cantos e desencantos, conjunto de 49 minitextos que o autor Luiz Cruz de Oliveira dedica "para a cidade de Cássia (de Santa Rita) onde tudo começou."
Editado pela Ribeirão Gráfica, tamanho 11cm x 17cm, capa dura, traz dois prefácios. Um do próprio autor e outro de Eny Miranda.
passarinha
A mãe faz dezenas e dezenas de vôos. Vai lá no vale e volta com o bico enfeitado: um graveto, um ramo, pequena touceira de capim seco. Constrói o ninho lá no topo, na franja do rochedo, obediente ao instinto que lhe segreda caminhos.
Bota o ovo e derrama, no ninho, calor que inventou por séculos e séculos. Um dia o relógio do tempo estridula: na casca do ovo aparecem fissuras. De repente, a casca se parte, o filhote abre a porta e chega.
Outra vez a mãe faz incontáveis viagens ao fundo do vale. Da beira do riacho traz minhoca e insetos, e deposita vida na boca do sempre-quero-mais.
Numa manhã, o filhote dá asas a seu destino, abandona a refeição assegurada, o calor da casa. Foge.
Passarinho sem penas, não espero o sol.
Salto do ninho em direção ao pico da madrugada, mas as asas pesadas do corpo frágil não amparam meu vôo. E meu corpo mancha de vermelho algumas pedras que insistem no caminho entre o ninho e a relva molhada que recebe meu desmaio.
No mato e no capim, claudico muito tempo, mas a insistência levanta vôos, apesar de as asas permanecerem para sempre tortas.
No caminho distante da passarinha mãe, caminhou comigo uma mulher que, seios fartos, colo quente, boca úmida, também construiu um ninho. Ninho diferente. Nada de gravetos, de capim.
Ninho tecido com arpejos, enquanto a mulher cantava a vida, tangendo as cordas do amanhã.
Passarinho surdo à dor e ao prazer vividos, escalo o rochedo mais alto e, da ponta da asa da madrugada, mergulho no oceano escuro.
Braçadas teimosas vencem ondas.
Agora, meu corpo e meu ser bóiam na imensidão. O sol sopra claridade excessiva, o azul é empurrado e me espreita lá dos confins. Meus olhos se esforçam inutilmente. Não enxergam a ilha que abandonei. Ela sumiu, sumiram todos os sons, sumiram todos os nortes.
Estou só, no meio do oceano. Mais uma vez.
Resta-me nadar, não importa para onde. Não sucumbirei.
A ilha naufragou, sumiu lá atrás. Eu nado.
E alcançarei meu continente.
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carta
De quando em quando meu pensamento fica temperamental, quase intolerável. Isso acontece quando sua idéia fixa acorda no meio da noite, e ele, desorientado, vaga pelos cômodos, desperta a casa inteira com seus gemidos e reclamos.
Isso aconteceu essa noite, mulher.
Sua insônia - uma sarna, dizia ele, começou a coçar alta madrugada ainda. Então me acordou, insistindo em que me levantasse, abrisse-lhe a porta da casa, deixasse-o partir ao seu encontro.
Relutei.
O pensamento, todavia, martelava, enquanto o espírito - bigorna avermelhada - reclamava repouso, sob pena de a paixão interná-lo em sanatório.
Sem escape, anuí e entreabri a janela do quarto, deixando que, qual nauta moderno, o pensamento engolisse nuvens, navegasse ao seu encontro.
Absorto, não percebi que a brisa, aproveitando-se da ocasião, entrou e, apalpando o escuro, andou pela casa inteira, até restar nos braços do violão que cochilava na sala.
Sozinho na casa enorme, senti que o ressonar do silencio era paulatinamente substituído pelo bafejo da brisa sobre as cordas do instrumento. Percebi ainda que a aragem fazia cócegas nas cordas, que elas sorriam.
Levantei-me e, ternamente, recolhi cada gota de riso que bailava no ar. Fixei, uma a uma, todas elas em pautas, depois espalhei-as em partitura.
Quando a canção ficou acabada, dissolvi-a nas entrelinhas desta carta que lhe envio amorosamente, mulher.