Minha filha vai completar 20 anos, uma jovem adulta que começa a ter contato com as relações profissionais. Outro dia perguntei-lhe sobre um curso que a interessava. Veio a resposta: “To esperando o cara do estágio”.
Ela remeteu o currículo para uma empresa e o contato ficou de dar o retorno. E até aquele momento... nada. E ela não podia se matricular no curso sem saber a resposta sobre o estágio. Por isso esperava.
Em minha vida profissional sempre deparei com coisas que não aconteciam, os ‘não-eventos’. E ao interpelar o responsável, invariavelmente vinha um ‘to esperando o fulano’, ‘to esperando a liberação’, ‘to esperando o orçamento’ e outras variedades de esperas.
Quando ouço o ‘to esperando’ vem-me à mente a imagem de um pobre velhinho no ponto de ônibus, à noite, no frio e chuva, esperando a condução que nunca chega. E vendo a vida indo embora... ‘To esperando’ é pra quem acredita que ‘quem espera sempre alcança’...
Expliquei à minha filha a razão do ‘to esperando’ não ser uma alternativa: a pessoa que você está esperando está preocupada com o tempo dela e não com o seu.
Provavelmente está entupida de coisas pra fazer, mais importantes para ela do que o estágio de uma garota desconhecida. Por isso, nenhuma urgência na resposta.
E enquanto a resposta não vem, outras coisas importantes não acontecem, pois você está ‘esperando’. Completei com algo que doeu lá no fundo: minha filha, no mundo profissional raramente alguém tratará as expectativas que você tem com o carinho, a importância e a urgência que você espera. Nesse mundo, quem trata as pessoas com senso de urgência e respeito é alguém especial. Muito especial. Espero que você seja uma profissional assim.
Depois desse diálogo ela foi chamada para uma entrevista do outro lado de São Paulo. A conversa durou 10 minutos. A empresa não informou que ‘procurava estagiários com dois ou três anos de experiência de mercado’. E ninguém pediu desculpas, ninguém explicou...
Ao mesmo tempo um amigo dela foi fazer exame de admissão como estagiário numa grande empresa. Chegou pontualmente sete da manhã e ficou esperando até as 10h40 para ser atendido. E ninguém pediu desculpas, ninguém explicou...
Pois é... Ao contrário do que ensinamos a eles, suas primeiras experiências profissionais têm sido a frustrante percepção de que a ineficiência, a grossura, o desrespeito e a incompetência talvez sejam regra, não exceção.
E naquelas jovens cabeças, lentamente, a esperança do verbo esperançar se transforma na esperança do verbo esperar. E isso é uma grande sacanagem. Espero que não seja tarde demais pra eles.
Luciano Pires
Jornalista, escritor, conferencista e cartunista