09 de julho de 2026

Crime contra o crime


| Tempo de leitura: 2 min

O meio rural deixou de ter segurança plena. Faz já algum tempo que a população do campo não desfruta mais daquela paz procurada por todos. A onda de violência da cidade estendeu-se por toda parte. De nada adianta uma pessoa sair da movimentação urbana para se refugiar numa chácara, sítio ou fazenda. O ladrão tem até mais facilidade de agir em locais afastados.


A comprovação desse fato fica por conta do noticiário policial. O número de assaltos a propriedades rurais cresce sem parar. Qualquer chacareiro, sitiante ou fazendeiro ainda se dá por satisfeito quando ocorre somente um furto em sua propriedade. Na maioria das vezes o roubo é praticado covardemente, com muita humilhação às vítimas, antes do uso de extrema violência.


Dificilmente se passa uma semana sem que a polícia registre uma ocorrência de assalto na área rural. No entanto, ultimamente, o fluxo criminal inverteu a mão de atuação. Os criminosos escolheram residir exatamente fora da cidade. Duas chácaras de condomínios diferentes na saída para Claraval serviam de base para a prática de atos ilícitos.


Na primeira chácara descoberta pela polícia funcionava um desmanche de veículos roubados. Segundo os vizinhos, o barulho produzido para ‘cortar’ carros era acobertado por um som musical em alto volume. O morador do imóvel rural dizia ser músico. Vivia ensaiando multipeças para posterior revenda a oficinas mecânicas.


A segunda ocorrência foi registrada em outra chácara não muito distante. Os locatários fugiram durante a abordagem deixando para trás duas crianças de 5 e 7 anos. A polícia encontrou quase 60 kg de maconha dentro da casa. A droga foi apreendida. As meninas ficaram sobre a guarda do Conselho Tutelar.


Tempos atrás a população rural de uma cidade do interior do Estado começou a combater o crime com o próprio crime. Os moradores de um condomínio de chácaras perceberam que a chegada de vizinhos suspeitos serviu para afugentar os assaltantes da área. Todos notavam as atitudes ilícitas dos novos habitantes mas ninguém denunciava. Se antes os roubos eram frequentes no local, deixaram de existir com as novas presenças.


Desoladora realidade esta: crime contra o crime. A partir do momento em que a sociedade deixa de acreditar na ação policial para combater as ações criminosas, isso prenuncia a aproximação de muito mais problemas. A convulsão das regras sociais está prestes de se realizar totalmente, em situação que não satisfaz parte nenhuma. Aliás, todo mundo sai perdendo.


Quanto aos ataques às propriedades rurais, com a nova onda dos meliantes em alugar chácaras afastadas da cidade para servir de esconderijo aos seus atos, seria até engraçado o embate entre eles mesmos. Já imaginou a base do crime ser atacada por outros assaltantes alheios à situação ilegal do morador?

 

Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br