Numa cidade com mais de 342 mil habitantes como Franca - segundo dados de 2010 da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados) -, o poder público não atinge todas as camadas carentes. É nesse contexto que entra o trabalho de pessoas dispostas a assistir crianças, idosos, deficientes, viciados em drogas e até animais. Mas ter boas ideias e força de vontade não é suficiente para colocar em prática bons projetos e prestar auxílio a esses grupos. É preciso suar a camisa para conseguir recursos, voluntários e infraestrutura para realizar um trabalho contínuo e com qualidade. No cadastro da Prefeitura existem cem entidades assistenciais registradas e todas enfrentam dificuldades para sobreviver.
Metade dessas instituições, segundo o secretário municipal de Ação Social, Roberto Nunes Rocha, recebe subvenção do município. Por ano, a Prefeitura repassa cerca de R$ 3 milhões para as entidades. Para pleitear a subvenção é necessário encaminhar um projeto para avaliação do Conselho Municipal de Assistência Social e da Secretaria Municipal de Ação Social.
Os recursos do poder público ajudam, mas não cobrem todas as despesas. O Lar de Idosos “Eurípedes Barsanulfo” atende 19 idosos, todos com mais de 60 anos. O gasto mensal com refeições, medicamentos, atendimentos médicos e fraldas (são 900 unidades por mês) é de R$ 1,1 mil por idoso. O governo estadual repassa R$ 976 por mês para a instituição, valor insuficiente para pagar sequer as despesas com um idoso. A verba municipal mensal é de R$ 5 mil, que não chega a custear cinco idosos.
Para quitar os déficits, a equipe de 12 funcionários mais os voluntários fazem como outras entidades e vivem às custas de bazares, almoços beneficentes e doações da comunidade e empresários. “Nossa maior dificuldade é financeira. Precisamos manter o atendimento. Abrimos a entidade para não fechar. Os idosos não têm outro espaço para morar”, disse a técnica de enfermagem Luciene Goulart, coordenadora do Lar. A casa atenderia mais que o dobro de idosos se tivesse recursos. Espaço tem. “Se houvesse mais oportunidades, acolheríamos 45 idosos porque espaço temos”.
Ter espaço físico não é a realidade de todas as instituições. Muitas trabalham em locais improvisados e limitam os atendimentos por falta de estrutura. Há situações em que as instituições conseguiram terreno da Prefeitura para construírem suas sedes, estão com o projeto arquitetônico em mãos, mas não têm o dinheiro para levantar as paredes. É o caso da Caminhar, entidade especializada em atender pessoas com paralisia cerebral. O dinheiro arrecadado em promoções tem de ser direcionado para cobrir as despesas. Não sobra para investir em projetos paralelos. “Somos uma empresa e pagamos funcionários e impostos. O importante de ressaltar é que ajudar é fácil. A pessoa pode doar R$ 10 por mês que já nos ajudará. Toda doação é importante. O ditado que diz que de grão em grão a galinha enche o papo se encaixa bem à nossa realidade”, disse a tesoureira Elisabete Salloum, que é mãe de Antônio, um jovem de 27 anos com paralisia cerebral atendido pela Caminhar.
É comum a equipe fazer as doações materiais “virarem” dinheiro. O edredom doado à Caminhar pelo 1º Leilão União de Forças da Apae em abril foi vendido por R$ 100, que foram usados na manutenção da entidade. A organização das promoções são trabalhosas, exigem muito planejamento, esforço, dependem de voluntários e nem sempre são muito rentáveis, mas sem elas as instituições não sobrevivem. Para se ter ideia dos resultados, a Caminhar promoveu em junho uma campanha de venda de pizzas. Precisou vender 388 unidades, por R$ 12 cada, e lucrou R$ 2 mil. “Nem sempre conseguimos muito, mas precisamos disso. Todas as iniciativas são importantes porque precisamos de dinheiro”, disse a coordenadora da Caminhar, Ana Estela Checchia.
SOLUÇÕES
Fernando Campos, presidente da Aeaf (Associação das Entidades Assistenciais de Franca), acompanha há anos as dificuldades das instituições para sobreviverem. “Não temos uma verba que venha do poder público e que cubra todas as despesas. A gente tem muita dificuldade para que se mantenha o orçamento, que haja condições para estar fazendo tudo certo”. Para ele, falta um engajamento maior da comunidade, empresários e do poder público para que as entidades consigam trabalhar com mais fôlego.
O secretário de Ação Social, Roberto Nunes Rocha, reconhece as dificuldades vividas pelo terceiro setor e a importância para o poder público do trabalho que desenvolvem. “O poder público não dá conta de fazer sozinho o que a lei determina, então é necessário que haja um entrosamento da rede de assistência, aí entram as entidades assistenciais. A dificuldade é tremenda”.
Segundo o secretário, a Prefeitura quer focar na capacitação das pessoas que atuam nas entidades para que encontrem alternativas para suprir as despesas e prestar atendimento adequado. “Fazemos cursos para mostrar o que a lei de assistência diz, que recursos públicos estão credenciadas a receber e como adequar seus quadros técnicos, de estrutura material, técnica e humana. Quando você se capacita, sabe o caminho das pedras, vai atender melhor, ter mais recursos, otimizar tudo aquilo que tem de recursos materiais, físicos, financeiros, tudo”, disse ele.