07 de julho de 2026

Discurso e prática


| Tempo de leitura: 2 min

A cidade de Franca possui uma extensa rede hidrográfica, uma profusão de pequenos córregos e cursos d’água que, em sua maioria, foram canalizados e escondidos das vistas das pessoas para servir ao deus automóvel. Essa ideia urbanística, oriunda de equívocos históricos do século passado, revelou-se desastrosa na maioria das cidades brasileiras que reproduziram o modelo das grandes metrópoles.


Franca não se constituiu em exceção. Os sucessivos embates do homem para domar a natureza, desde a canalização dos primeiros córregos como o Cubatão e Bagres, passando pela destruição da cachoeira natural do Bagres e agora, pelas obras da prefeitura na confluência dos dois córregos, são capítulos de um mesmo erro que não será solucionado se apenas as grandes obras e os grandes contratos com empreiteiras forem o centro das políticas públicas.


O gasto de recursos essenciais para melhorar a vida das pessoas que necessitam dos serviços de educação, saúde e cultura públicos com grandes obras não é, de forma alguma, nem o único e nem o melhor caminho, até porque em Franca o problema é bastante localizado e seu impacto ainda baixo, administrável com planejamento e ações de defesa civil.


O melhor caminho seria desenvolver um conjunto de ações de baixo custo previstas no Plano Diretor e nunca consideradas pela administração Sidnei Rocha.


Implantar o Estudo de Impacto de Vizinhança – EIV, controlar adequadamente o uso e ocupação do solo fazendo-o cumprir a função social da propriedade, a implementação da educação ambiental e a efetivação das áreas permeáveis nas propriedades públicas e privadas, seriam mais importantes e eficazes que grandes obras, cujo impacto midiático é o que interessa a governantes autoritários.


Vejam a contradição: de um lado, o governo aprofunda a calha do córrego e alarga os canais. De outro, deixa aumentar o volume de água que vai chegar nele.


Prova disso é o que a prefeitura fez no Poliesportivo, o principal parque da zona sul da cidade. Construiu um novo ginásio de esportes, asfaltou novas áreas de estacionamentos, cimentou novos passeios pelo local, concretou as quadras de saibro e canalizou as águas que irão mais rapidamente para o fundo de vale que está sendo alargado. Ou seja, áreas que antes eram permeáveis, deixaram de sê-lo.


De um lado, o discurso anti-enchentes. De outro, o próprio governo cria condições para mais água afluir rapidamente ao córrego. Faça o que eu falo, não o que eu faço, parece ser o contraditório discurso de um governo sem imaginação.


A mudança em andamento, proposta pelo governo de Sidnei no Plano Diretor em relação à bacia do rio Canoas para atender interesses ainda não muito claros, é mais uma confirmação da ausência de um projeto para a cidade que priorize o desenvolvimento sustentável.


Quando Franca acordar, o pesadelo já estará instalado reproduzindo o que de pior têm as grandes cidades.

 

Mauro Ferreira
Doutor em Arquitetura e Urbanismo, professor da FESP-UEMG