Em julho de 1972, encontrava-me em Paris a estudos. Quatro dias nos separavam do início de uma viagem programada para o Vale do Loire, com destino ao Mont Saint Michel. Por quatro dias enfrentei o agradável dilema de optar por uma dessas viagens: a cidade peregrina de Lourdes ou o castelo medieval de Saint Michel. Acabei escolhendo Lourdes. Adquiri numa loja uma mochila e aí coloquei aquilo que entendia necessário para permanecer uma semana, que fosse, na cidade das peregrinações. Apanhei um trem para Lourdes, na Gare d’Argenteuil, norte de Paris, antes do nascer do dia.
Chegando ao meu destino, hospedei-me num dos incontáveis hotéis da cidadezinha e me espantei com o número de turistas. Visitei a belíssima basílica de Lourdes e muitos pontos me chamaram a atenção, além da história da santa, da gruta, da cidade notadamente.
No quarto dia, estando perto da es-tação da estrada de ferro, observei perto de 50 homens de várias idades e nacionalidades que se mantinham reunidos na plataforma. Podiam ser tomados por viajantes comuns se cada um não usasse sobre a camisa ou blusa um acessório característico: uma espécie de arreio de corda ou couro. Procurei me informar: eram membros da grande irmandade de padioleiros de Lourdes. Eles estavam esperando o primeiro trem de peregrinos que vinham do mundo inteiro a este santuário nos Altos Pirineus à procura de bem-estar físico e espiritual. Quando a locomotiva parou, chiando, eles entraram no trem aos pares, reaparecendo depois carregando os doentes em macas suspensas em seus arreios especiais.
Busquei mais informações e as ob-tive: em julho e agosto os meses mais movimentados de Lourdes, talvez devido ao verão europeu, de 4 a 5 mil padioleiros afluíam ao santuário ao mesmo tempo e ainda assim desapareciam em meio de mais de 60 mil peregrinos. A maioria dos inválidos se apresentavam tão gravemente enfermos que não eram capazes de ficar de pé sem ajuda. Simpatizou-me a idéia de ser um padioleiro, na exuberância de minha juventude, aos 22 anos de idade. Na manhã seguinte, procurei uma das instituições que cuidava de registrar, analisar, orientar e verificar as condições de saúde do candidato a padioleiro. À tarde do mesmo dia, eu era um deles.
Logo cedo, antes de o sol aparecer, eu era um dos homens reunidos na plataforma da estrada de ferro de Lourdes. Tinha por companheiro um português, Miro Carvalho, de Cascais, já veterano. A sua indicação para meu parceiro não fora casual; seus conhecimentos e experiência muito me valeriam naquela prova.
Chegou o trem. Tomamos nossa maca e entramos. Muita, muita gente. Miro procurou por um enfermo. Não tínhamos muito que conversar, mas agir, com vigor e presteza. No vagão dos enfermos havia doentes com chagas supuradas, paralíticos e cancerosos. Todos esperavam uma cura milagrosa como as centenas que a Igreja tem registrado desde a aparição da santa à menina Bernadete. Apontei a Miro um paralítico. O colega português assentiu. Tratava-se de um homem de meia idade, calvo, paralítico. Olhou-nos agradecido. Já sabia quem éramos, do que se tratava. Perguntei-lhe em francês o seu nome. Em espanhol ele me respondeu chamar-se José Valverde. Perguntei-lhe, então em espanhol, o que ele aguardava de sua visita a Lourdes. Ele disse:
- Ouvir missa na Basílica, seguir procissão e rezar a Nossa Senhora de Lourdes, a Imaculada Conceição; rogar-lhe a graça da concessão de um milagre, se eu for merecedor.
Minha razão crítica, ainda em for-mação, cutucava-me interiormente, demonstrando a impossibilidade de tal concessão. Fiz-me surdo à razão; deixei-me levar pela fé daquele pobre homem. Viajamos, eu e Miro, a pé, até a Basílica de Lourdes. Lá chegando, com certa dificuldade, transportamos o senhor Valverde por todos os lugares que ele desejava visitar ou estar. E, é claro, uma vez presente nesses lugares, ouvia as pregações e as exclamações de milagres obtidos.
Não vou emitir aqui nenhum juízo a respeito.
O trabalho de um padioleiro exigia músculos, certamente, mas também exigia coração. A dedicação desses homens com arreios era ver para crer. Sei que trabalhei 6 a 8 horas por dia, durante quase uma semana, indo ao encontro dos inválidos, sempre acompanhado por Miro Carvalho, com quem troquei correspondência por quase 10 anos, até a sua sentida morte em Portugal.
Não éramos enfermeiros profissionais. Apenas prestávamos nossos serviços e custeávamos nossa estada em Lourdes.
Os padioleiros constituíam o exército mais democrático do mundo. Entre eles encontrei um antigo ministro de Estado, um oficial do Exército, um comerciante e um lixeiro que economizava dinheiro o ano todo para sua viagem a Lourdes. Vi um diretor de companhia francês e um barão belga trabalhando sob as ordens de um mensageiro de cortiços de Paris, porque ele era o seu chefe de seção.
A missão dos padioleiros não ter-minava quando partiam de Lourdes. Durante o ano todo, e não apenas por cinco ou dez dias em cada estação, eles se sacrificavam em suas cidades respectivas para aliviar o sofrimento dos doentes.
Foi assim que me tornei um padioleiro de Lourdes.
Foi assim que, quando retornei a Franca, pude dar continuidade às visitas aos doentes.
Assim eram os padioleiros. Até o dia em que os conheci, Lourdes parecia-me a cidade mais triste do mundo. Sei agora que também é a cidade da esperança, onde aprendi que, aconteça o que acontecer, nunca devemos desesperançar da bondade humana.
A última notícia que tive de Lour-des foi a de um homem com esclerose múltipla, cuja cura foi reconhecida em 1999, depois de doze anos de pesquisas coordenadas por comissão médica. Em face de sua fama de natureza universal, não é de estranhar que muitos livros tenham sido escritos sobre o que já sucedeu ou vem sucedendo continuamente em Lourdes.
Faltam-me dados atualizados sobre os padioleiros.
Everton de Paula
Acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 42 anos