08 de julho de 2026

De sonhos e de vigílias


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Vi-os numa tarde qualquer, em um desses supermercados que se instalaram na cidade.
Estavam muito à vontade.


Uns, asas rígidas, enérgicas, em voos rápidos e rasantes, executavam firulas a velocidades incríveis; outros, corpo flexível, voejavam tranquilos braços abertos, arcos flutuantes, leves luas novas, crescentes, minguantes, contra plácidos azuis ou pores de sol fantásticos... nas 52 polegadas de tela plana do maior televisor da loja: espessura mínima e imagem máxima, irretocável, quase real.


Parei para apreciá-los.


Aqueles homens brincavam de pássaros, em grande festa de faz-de-conta.


Pássaros de asas rígidas ou macias; aviões em “air races” ou parapentes em voos suaves, livres, escorrentes, deixavam suas imagens falarem de sonhos.


Sobre baía azul-verde, ou sobre vasto gramado, num momento eram águias; noutro, gaivotas.


Ora seus corpos frenéticos, seguidos por uma esteira de fumaça colorida, cortavam o ar sob céu de brigadeiro, em louca, célere coreografia, como tintas sobre a tela, nas mãos ágeis, nervosas, de pintor abstracionista, passando entre obstáculos, ziguezagueando, a altitude mínima, e a sabe Deus quantos quilômetros por hora, em labirintos imaginários; ou subindo ao sol, vulcânicos, e descendo, às duplas, em movimentos helicoidais, lembrando uma estrutura surreal e atávica, um DNA verde-e-amarelo de enredos africanos e europeus. (Observei, aliás, uma preferência pelo verde e o amarelo, tanto nas asas dos seres e na fumaça que os seguia, quanto nas roupas de muitos dos que assistiam ao espetáculo).


Ora leves, os arcos lunares flutuavam em círculos sobre espelho d’água, e então um deles adernava, e uma das extremidades riscava a superfície brilhante, e nela imprimia líquidas letras, efêmera mensagem.


No entanto, os acrobatas eram seres humanos: humanos alados.


Houve um momento em que quase pude ler (ou cheguei mesmo a ler?), na líquida folha, sob uma nuvem de fumaça verde e amarela, a expressão:


BRASIL HEXA...


Pensei tratar-se de miragem, e afastei a hipótese da leitura.


Então, desisti do espetáculo e dos sonhos que me despertavam.


Como acreditar em homens-pássaros e confiar no que é gravado em água e envolto em fumaça?

 

Eny Miranda
Médica, poeta e cronista