08 de julho de 2026

O pijama de bolinhas


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Lá em casa, o apelidamos de “O Loyola que não é Brandão”. O médico francano Carlos Alberto Loyola de Resende, cuja amizade até hoje mantemos, acompanha nossa vida a dois desde o início, ele é um dos poucos amigos que está nas fotos em preto & branco do casamento e também da primeira exposição de gravuras da Atalie, ainda nos anos 70. Atalie e Loyola estudaram juntos, frequentaram o mesmo grupo de jovens. Fiz amizade por tabela, pois Loyola lia muito e discutíamos política e arte.


Ele fez cursinho em São Paulo, depois medicina em Petrópolis, a Cidade Imperial, por lá casou e ficou, especializado em ortopedia. Sempre que acontece alguma coisa inusitada em Franca (e não são poucas), ele nos pergunta ironicamente pela internet (certamente arrastando os essesss cariocasss, o sotaque já mudou) se adicionaram algo estranho na água de Franca. Sempre que ele pergunta isso, relembro os tempos de Woodstock, quando um grupo de hippies queria despejar quilos de LSD na estação de tratamento de água de Nova Iorque para ver o que aconteceria, como forma de protesto contra a guerra do Vietnã.


A banalização do uso de drogas, algumas legais, outras não, é um problema mundial e que só tem aumentado. Bebidas, maconha (que até o FHC defende a descriminalização), cocaína, crack, LSD, anfetaminas, a lista só aumenta a cada dia que passa e se torna um dos mais graves problemas de saúde pública da sociedade atual.


Quando adolescente, vi muita gente tomando “bolinhas” para aguentar o ritmo das festas, mas foram outras bolinhas que nos divertiram. A primeira bebedeira que assisti de perto foi do meu amigo Pedro Tacca, motivada por uma paixão não correspondida. A gente saiu a pé pela noite, fazendo serenatas nas casas das meninas da Vila Flores. Nem lembro por causa de quem, mas o fato é que ele começou a beber rum por conta da dor de cotovelo e sua resistência ao álcool era mínima. Bastaram dois goles da garrafa para ele atravessar o Rubicão e ficar para lá de Bagdá. Ficamos com um mico na mão, a serenata mixou porque ele era o crooner, o dia amanhecia. Como devolver o rapaz para a mãe daquele jeito?


Um dos colegas que tinha a cabeça no lugar, talvez o Paulinho Vilhena ou o Tião Presotto, arrumou uma solução. “Vamos levar ele para um vizinho, dar um banho gelado que ele fica novo”. Batemos na casa do José Olivieri e da Mainha que, conhecendo o menino vizinho, logo nos receberam. Era bem cedo, ainda madrugada. O Pedro, meio tonto, foi carregado pela gente até o box do chuveiro para tomar uma ducha gelada. Ao ver o dono da casa, o Pedro tascou em cima: “olha o pijama de bolinhas dele”. Nem o próprio Zé Olivieri resistiu e caiu na gargalhada também, dizendo “deixa estar que, amanhã, quando ele estiver sóbrio, eu desconto essa”.

 

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor