08 de julho de 2026

A Pátria sem chuteiras


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É, não deu! O Hexa foi adiado mais uma vez. O jeito é pendurar as chuteiras e esperar 2014. Aí sim, levantaremos a taça em pleno Maracanã e nos redimiremos de 1950. É preciso esperar. Esperar com calma, paciência e obstinação.


 O futebol não é só técnica, tática, preparação física. Uma aura de mistério e superstição envolve , inquestionavelmente, uma partida. Nem sempre ganha o melhor, o mais habilidoso, o mais preparado. O futebol é antes de tudo um jogo e, por ser um jogo, não há como fugir do acaso, do imprevisto, do imponderável. Há sempre uma bola na trave, um morrinho artilheiro, um desvio impossível na trajetória das jabulani. O Corínthians, por exemplo, ficou mais de 20 anos sem ganhar um título. Por melhor que fosse o seu time, ele perdia. Diziam que era feitiço, que haviam enterrado um sapo no gramado do Parque São Jorge. Eu, durante os 20 e tantos anos de insucesso, acreditei na macumba por ser a única explicação lógica para tantas derrotas. Portanto, prezado leitor, existe o chamado pé frio, o olho gordo. Quando informaram que o Mick Jagger foi ao campo para torcer para o Brasil, eu esfriei. O Galvão Bueno, que havia secado a Daiane dos Santos, resolveu voltar os seus olhos gordos para o Júlio César. Não deu outra: o cantado e decantado melhor goleiro do mundo, o invulnerável Júlio César, falhou. Falhou uma vez só, mas falhou no momento decisivo.


 O futebol é um espetáculo, nada mais do que um espetáculo. Não é uma guerra, um confronto entre nações. Na minha opinião ele é um balé com suas fintas, dribles, lençóis, chapéus, arrancadas, gingados, etc. Às vezes, vira uma luta e o pau come. Os joelhos, os tornozelos, as canelas ficam lesionados, os músculos distendem-se; enfim, o corpo sofre e o espetáculo perde o seu brilho. Eu deveria preferir o espetáculo à luta, o balé à correria, os dribles desconcertantes à estratégia engessante. Porém, como não estou vendo mais nada, o que eu quero mesmo é bola na rede, é o gol da vitória.


 E o gol não veio. Perdemos. Per-demos mais uma. Contudo, já ganhamos 5. Não está bom? Claro que não. O Brasil é o país do futebol. Cada brasileiro projeta-se nos jogadores canarinhos e invade a área e deixa o adversário no chão e estufa as redes do inimigo. Não são 11 que jogam. São milhões que entram em campo e disputam a partida. São milhões que vencem e, quando derrotados, choram, descalçam as chuteiras e começam a correr descalços nos “rapadões” das periferias na esperança do surgimento de um novo craque, de novos ídolos que nos trarão novas alegrias e a taça do próximo campeonato.
 

Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras