08 de julho de 2026

Paulo Moura


| Tempo de leitura: 2 min

Essa semana o Brasil e o mundo perderam um dos maiores instrumentistas da nossa história. O clarinetista e saxofonista Paulo Moura morreu aos 77 anos de idade e deixou um acervo musical fantástico e uma história ainda maior. Minha homenagem a ele tem o objetivo não da reverência simples, mas do reconhecimento de uma participação na música brasileira que a qualificou internamente e, principalmente, em todo o mundo.


Destacar a importância de Paulo Moura para a música contemporânea é destacar o que há de melhor qualidade. Ele transitava com indiscutível competência por diversos gêneros musicais. Ao longo de sua carreira passou pela musica clássica, pelo jazz, pela bossa nova e pela música popular construindo parcerias com Milton Nascimento, Elis Regina, Wagner Tiso, Sérgio Mendes, Nivaldo Ornelas, apenas para citar alguns de quem tenho a felicidade de possuir discos (a maioria em vinil). Tocou também com alguns ícones brasileiros como Ary Barroso e Dalva de Oliveira. Foi reconhecido em 2000 com o Grammy, maior premiação da música mundial por seu trabalho ‘Pixinguinha: Paulo Moura e os Batutas’.


Sua atuação na vida musical brasileira não foi só a de instrumentista (o que já teria sido suficiente) mas também assumiu atribuições públicas quando dirigiu por 2 anos o Museu de Imagem e do Som (MIS) da cidade do Rio de Janeiro.


Conheci a música de Paulo Moura ainda na universidade, final da década de 70 quando vivíamos a mania de valorizar a música e os músicos brasileiros. Os que integravam o movimento estudantil tinham a saudável prática de animar nossas reuniões e festinhas (coisa que os estudantes adoravam fazer) com música brasileira de boa qualidade, muito diferente de hoje, quando quase diariamente surge uma nova dupla sertaneja sem qualidade musical e, com apenas um disco, fica rico em poucos meses.


Ouvir e comentar Paulo Moura é se encantar com a perfeição. Não foi, quantitativamente, um grande compositor, mas foi, certamente, um dos maiores intérpretes da música mundial e sua discografia é enorme. A riqueza da sua música era a capacidade de interpretar a beleza dos sons que só as pessoas sensíveis conseguem compor. É certo que muitas músicas clássicas tornaram-se mais bonitas e melódicas através da sua interpretação e abre-se, com a sua morte, uma enorme lacuna na música mundial.


A sua capacidade de interpretar e juntar os sons está explícita na explicação que dá no encarte do seu último disco (Afrobossanova) que trabalha exatamente a fusão cultural-musical. Nele, diz: ‘AfroBossaNova. É um amálgama, combinação tão estreita de elementos diferentes que os tornamos inseparáveis. Quando nomeamos algo, lhe damos existência. E, no mesmo ato, lhe atribuímos qualidades (e talvez, defeitos) de algum outro ou de si mesmo. Fusão de sons e cores. Convocação. Inventamos, ao reinventar’.


Viva a boa música. Viva Paulo Moura. Ele tem todo o universo e a eternidade para preencher com a beleza do som que inventa e reinventa.

 

Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário