Por Luiz Cruz de Oliveira
Moleque, com doze anos de idade, saía, aos sábados, pelas ruas e praças de Franca, oferecendo o semanário. Lembro-me que recebia comissão sobre cada exemplar vendido. Nítido na memória ficou para sempre o título do artigo de capa, sempre o mesmo: se eu fosse o prefeito... Iniciando-me na leitura, achava sagrado o papel impresso e, por isso, desde aquela época, venho comparando o livro e o jornal a um templo: caminho para a educação, instrumento capaz de contribuir decisivamente para a elevação de uma comunidade.
Assim, quando um jornal se torna grande, semelha-me uma catedral.
A meus olhos, nosso Comércio da Franca começou capela, já foi igreja pequena, hoje caminha para o estágio de catedral que se constrói mês a mês, ano a ano, década a década. Os baldrames iniciais foram fincados quando Franca engatinhava, e o primeiro pedreiro foi José de Melo. Muitos obreiros se sucederiam ao longo dos anos, irmanados na mesma tarefa: desenhar no concreto o que se plantara no sonho.
No momento em que se fixou a pedra fundamental em solo francano, idealistas e idealizadores acenderam um cento de velas no coração dos sonhadores. As velas ardiam a esperança de que, um século depois, ainda vicejasse o verde que açambarcava Franca e adjacências.
A cada mais um ano, uma vela é soprada desde 1916.
Ao longo da história, foram assentados alicerces sólidos, levantaram-se paredes altas. E a construção cada ano mais se distanciou da terra vermelha, misturou-se ao azul do infinito, como se fora menino caçando o arco-íris.
Aí, virou tradição. A cada parede levantada, a cada cômodo construído, há comemoração: sopra-se uma vela a cada 30 de junho. E, assim, ao longo da caminhada, a construção virou capela.
Novos obreiros chegaram.
Hoje a redação semelha formigueiro. Pequena multidão de homens e mulheres, em febril atividade, cada qual com sua argila, cada qual com seu tijolo, compõem o teto do templo idealizado por um José de Melo cuja figura esmaece na névoa do tempo.
A construção está quase pronta. Estão faltando apenas a torre e o sino. É hora de ser apagada a sexta das restantes velas.
O moleque que vendia jornais espera que o corpo cansado resista, possa ouvir o dobre do sino, possa também soprar a centésima vela.