16 de março de 2026

A feira da década


| Tempo de leitura: 5 min
O otimismo vem de um lugar menos matemático e mais poético: o sorriso aberto ao expositor

“Faça o que puder, com o que se tem, onde estiver”
Theodore Roosevelt,
ex-presidente americano

Terminou na última quinta-feira, nos pavilhões de exposição do Anhembi, mais uma edição da Francal. Durante quatro dias, 53 mil lojistas e importadores marcaram presença nos corredores da feira. A 42ª edição daquele que é considerado o maior evento de um setor que emprega diretamente 360 mil pessoas em todo o País já é passado, mas seus reflexos serão sentidos ainda por muitos meses. Nenhuma notícia poderia ser melhor. Nada indica que, pelo menos no curto prazo, ocorra qualquer mudança no clima de euforia resultante da associação dos termos “economia” e “mercado calçadista”.


Não há exatamente um índice qualquer que comprove esta tese. Apesar do gigantismo de uma feira que reúne mais de 1.000 expositores, não existe qualquer tipo de totalização diária do volume de negócios fechados, até porque isso dependeria da disposição dos expositores em abrir seus números. Também não vem dos indicadores macroeconômicos, anunciados pelo governo federal ou por entidades representativas do setor durante a feira, nem sempre perceptíveis e palpáveis no mundo real. O otimismo vem de um outro lugar, menos matemático e mais poético, e ainda assim muito mais verdadeiro: o sorriso estampado no rosto de praticamente 100% dos expositores.


Ao longo dos últimos 12 anos, desde quando passamos a acompanhar a feira a partir de uma redação pioneira montada nos pavilhões do Anhembi, aprendemos muita coisa. Desde detalhes antes ignorados sobre o intrincado funcionamento do mercado calçadista até as nada sutis mudanças de humor do empresariado do setor, sempre suscetível às turbulências na economia do País, especialmente quando o vendaval passa pela política cambial ou tributária.


Nesta mais de uma década em que, a cada mês de julho, parte de nossa equipe se desloca para participar da cobertura da Francal, vimos diferentes presidentes, ministros e governadores desfilarem pelos corredores do Anhembi, momentos de forte crescimento da economia mundial e também depressões inacreditáveis, dólar cotado a R$ 4,24 e a R$ 1,40, setor em ritmo de forte contratação de pessoal e também edições onde a redução nos níveis de produção era a palavra de ordem.


Registramos a mudança no foco do calçadista francano, antes quase que exclusivamente voltado para a produção de sapatos masculinos de couro e que, nos últimos anos, vem ampliando o leque para variações mais modernas, como os tênis e sapatênis, além de incluir linhas completas dedicadas ao calçado feminino no seu portfólio de produtos.


Acompanhamos ainda a expansão da feira para outros segmentos que ganham ano a ano cada vez mais área, como o salão de bijuterias, os estandes de malas, os expositores de acessórios de couro e os espaços coletivos dos principais pólos calçadistas. Vimos a feira crescer a ponto de não caber mais dentro do próprio Anhembi e ser preciso instalar anexos do lado de fora para comportar o número de expositores interessados.


Crescemos também junto - e no ritmo - da Francal. Há doze anos, quando participamos da feira pela primeira vez com um estande próprio, éramos uma equipe de apenas quatro pessoas que enviaram umas poucas matérias para o jornal do dia. Desde então, criamos um tablóide diário com um resumo de tudo o que acontece no Anhembi e que serviu de inspiração para outros tantos fazerem o mesmo. Incorporamos o rádio à nossa cobertura, com programas simultaneamente transmitidos a partir de Franca e São Paulo, e é com orgulho que vimos outras emissoras de vários cantos do Brasil hoje fazerem a mesma coisa. Há tempos a internet faz parte do pacote, com vídeos e atualizações durante o evento. Nesta edição, incluímos TV em nossas plataformas de informação. A Francal 2010 marca a estreia de nossa parceria com a TV Bem e o maior número de pessoas já destacados para uma única cobertura. No total, 35 pessoas se dedicaram a identificar, analisar e registrar o que acontecia nos corredores do Anhembi.


O que nunca tínhamos visto até agora era a sensação de otimismo unânime que dominou os quatro dias de feira nesta última semana, uma espécie de felicidade geral que uniu expositores, visitantes, organizadores. Impossível não perceber, desde as primeiras horas da manhã de segunda-feira, a alegria estampada nos largos sorrisos dos calçadistas presentes no Anhembi. Ninguém de mau humor. O clima era o mesmo para todos, independente do tamanho do fabricante, de seu perfil de produto ou de onde sua fábrica estava localizada. Pouco importa se estava ali para mostrar bijuterias, bolsas, malas, sapatos ou o que quer que fosse ligado à indústria de calçados e acessórios, o clima de felicidade era evidente.


Não temos acesso aos números de cada expositor para poder comparar de forma objetiva, mas aprendemos ao longo dos anos a identificar as nuances. Ano ruim é sinônimo de expositor impaciente e irritado com a imprensa, vendedores sempre reclamando de tudo, discurso furioso das lideranças do setor. Ano bom é tempo de portas abertas, disposição permanente para fotos, músculos distendidos na face e muitas comemorações pelo bom dia de feira. Estes são alguns dos parâmetros importantes que norteiam nossas avaliações.


Oficialmente, expositores e organizadores avaliam a 42ª edição da Francal como a melhor feira dos últimos cinco anos. Pode até ser que tenham razão e que, em algum momento do início deste século, uma outra edição da Francal tenha registrado negócios mais importantes, mas acho pouco provável. Sorrisos largos e abertos como os que vimos este ano no Anhembi nunca havíamos registrado antes. Pelo menos nos últimos doze anos é possível garantir. O melhor é que não há qualquer perspectiva de tempo ruim no horizonte que justifique uma mudança nos humores do setor calçadista. Bom para o Brasil, melhor ainda para Franca. Saúde!

 

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br