09 de julho de 2026

Do sonho ao desafio de estar no país da Copa


| Tempo de leitura: 4 min
turistas caminham pela Table Mountain, ponto turístico da Cidade do Cabo, na África do Sul, com mais de mil metros de altitude. Ao fundo, o Estádio Green Point, que sediou vários jogos da Copa do Mundo

Tudo começou no final do ano passado, quando eu, Rodolfo Tiengo, e o fotógrafo Marcos Limonti tivemos uma idéia: por que não fazer um intercâmbio cultural para aprimorar o inglês e aproveitar para conferir de perto um dos maiores eventos esportivos do mundo? Foi então que, em uma tarde dessas bem agitadas dentro da redação do Comércio da Franca, conversei com a editora-chefe, Joelma Ospedal, e expus a proposta.

Diante de uma resposta encorajadora, delineamos um projeto de cobertura jornalística, tendo como princípio o conceito multimídia - que acena com os planos de expansão do GCN Comunicação -, ou seja, reportagens para jornal, rádio e blog. Sugerimos uma cobertura paralela da Copa do Mundo. Seríamos dois profissionais iniciantes com o objetivo básico de mostrar nosso modo de enxergar aspectos particulares de um país rico em cultura, história e contradições. O contraste, as dificuldades para viabilizar as exigências da Fifa, as peculiaridades das comunidades locais, o apartheid social, entre vários outros assuntos ligados diretamente à África do Sul e à realização de uma Copa do Mundo.

No primeiro projeto enviado à direção do GCN Comunicação, explicamos que gostaríamos de passar o primeiro mês na Cidade do Cabo, estudando inglês na Good Hope Studies e conhecendo as belezas locais. Depois disso, expandiríamos nossa estada para outras cidades a fim de assistirmos à primeira Copa no continente. A direção acatou o projeto e nos liberou por três meses para realizá-lo, além de conceder auxílio para viagem e estadias no país da Copa.

Após quatro meses de conversações e muita preparação - com uma complicada e quase impossível busca por acomodação a custos plausíveis em plena Copa do Mundo -, embarcamos no dia 29 de abril em um vôo de oito horas do Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, rumo ao de Joanesburgo. Marcava-se o começo de nossa imersão sul-africana. O que já sabíamos, mas viemos confirmar por aqui, na África (de onde ainda escrevo esse texto que o leitor tem em mãos), é que esta Copa do Mundo se consagra como o evento esportivo da oportunidade, especialmente para os jovens jornalistas, pois oferece amplas possibilidades de reportagens e transmissões em busca de um lugar ao sol no disputado meio midiático brasileiro. Há de tudo aqui. Gente ligada a grandes veículos das capitais até profissionais recém-formados vendendo "frilas" para jornais do interior paulista, em cidades por exemplo como Presidente Prudente. O que é bom de observar é que tem jovens muito corajosos por aqui fazendo um trabalho respeitável.

Somente aqui fomos ter a real dimensão de certos problemas de infraestrutura do país. A precária conexão com a Internet e as ligações telefônicas de baixa qualidade nos causaram muitos problemas. Para se trabalhar com o mínimo é preciso adquirir um modem de banda larga móvel, além do pacote de dados limitado - isso significa que qualquer envio de fotos em alta resolução é um problema. Assim o uso da internet é algo que deve ser bem racionalizado, pois é caro.

Aprendendo a lidar com esses e outros problemas e adaptando-se a uma rotina estranha que inclui acordar cedo para ir à escola e viver em uma host family cheia de regras - o que para dois marmanjos, frise-se, soa um pouco descontextualizado - estamos fazendo nosso trabalho. Os ouvintes e leitores acompanham boletins diários na Difusora AM 1030 com informações sobre preparativos do Mundial, jogos e o que se mostrou mais interessante por aqui. Reportagens especiais são publicadas nas páginas do Comércio da Franca e nos posts diários no blog comercionacopa.wordpress.com - onde retratamos curiosidades sobre o País da Copa, de um despretensioso jogo de futebol em uma township até a incrível subida a Table Mountain. Também estamos no Twitter (@comercionacopa) onde preferimos destacar os detalhes mais pessoais de nossa rotina - da frente fria que chegou à cidade ao que fizemos de interessante durante a semana.

Observado pelo zagueiro Juan, o meia Elano beija a cabeça do lateral direito Maicon. Assistir a seleção jogando ao vivo esteve entre as grandes emoções do repórter e fotógrafo do GCN

Após o primeiro mês vivemos mais um desafio. Esse foi pesado: a metrópole Joanesburgo e seus inerentes problemas. Encontramos trânsito complicado, distâncias quilométricas entre os pontos de referência e violência acentuada - bem mais do que na Cidade do Cabo. Temos que tomar cuidado redobrado com nosso equipamento, especialmente com a câmera fotográfica, neste momento. Sem contar a concorrência que ficou mais forte com a chegada definitiva de toda a imprensa mundial.

Mesmo assim nos mostramos prontos. Seja para ir a Soweto ou às áreas de concentração dos torcedores, o que importa é contar muitas histórias. Todas quanto possível para trazer o francano a este lugar memorável. O melhor disso tudo não foi só adquirir fluência em um idioma estrangeiro ou realizar uma cobertura jornalística para seu currículo ou ainda aproveitar a oportunidade de estar no maior evento esportivo do planeta. A melhor recompensa são as pessoas que descobrimos por aqui. As diferentes e belas maneiras de se enxergar a vida, de se lutar por ela com dignidade. Para nós vale a maturidade, adquirida ao custo da dolorosa distância da família, da namorada e dos amigos.
 

 

Veja o quadro abaixo: